Implantes hormonais causam infarto renal, hepatite e UTI: relatos de mulheres
Implantes hormonais: infarto renal, hepatite e UTI em mulheres

Uma sentença da 2ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo, assinada em agosto de 2025, reconheceu que o implante hormonal inserido pelo médico Bruno Santiago Jacob causou o infarto renal em Ana Karina Porto Oliveira, que ficou internada por seis dias sob risco de perder o único rim. O juiz Tom Alexandre Brandão condenou Jacob e sua clínica, a DBJ Saúde da Mulher, ao pagamento de indenização, por imperícia e negligência. A decisão detalhou a composição do implante: gestrinona, testosterona, estradiol, estriol e metformina, medicamento para diabetes, doença que Ana Karina nunca teve.

Relatos de mulheres sobre os implantes hormonais

Ana Karina, decoradora paulistana de 53 anos, conta que foi ao consultório em maio de 2022 com infecção urinária de repetição. O médico, conhecido da família há mais de 20 anos, não tratou a infecção e propôs o implante. Ela afirma que foi alertada: "se não colocar o implante, você vai virar mulher-maçã, vai engordar, perder a cintura, a pele vai craquelar". Apesar de ter apenas um rim e histórico familiar de câncer, o médico disse que a preocupação era ultrapassada. Após 45 dias, Ana Karina ganhou 12 quilos, desenvolveu acne intensa e sentiu dor no rim. No hospital, o emergencista perguntou se ela usava anabolizantes e disse: "A gestrinona potencializa a testosterona. Você estava com uma bomba relógio dentro do corpo."

Gabriela Cabral, 40 anos, com doença hepática genética rara (PFIC 3), procurou um médico famoso no Instagram para emagrecimento. Ela informou sobre sua condição, mas o médico prescreveu implante de testosterona de 100 mg e injeções semanais. Após um ano, suas taxas hepáticas dispararam. O hepatologista diagnosticou toxicidade hepática induzida pelo implante. Gabriela ficou internada três dias com vômitos e desidratação, gastou R$ 35 mil em tratamentos e nunca recebeu protocolo por escrito ou termo de consentimento.

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Uma terceira mulher, que não quis se identificar, procurou uma médica de confiança em Salvador para tratar cansaço. Recebeu implante com gestrinona, testosterona, ocitocina e NADH. Desenvolveu abscesso no local, coceiras intensas e câimbras severas. As enzimas hepáticas dobraram a cada dois dias, exigindo biópsia. Ela relata: "Eu realmente achei que não ia sobreviver. Desenvolvi pânico e medo de todos os medicamentos." A melhora veio quando o pellet se esgotou.

Reação do médico e posição da justiça

Procurado, o médico Bruno Santiago Jacob afirmou que não pode comentar detalhes por sigilo médico, mas disse que a indicação de terapias hormonais deve ser individualizada e que o tratamento não é isento de riscos. Ele alegou que a paciente não compareceu às consultas de retorno. No entanto, a perita judicial afastou os argumentos. O juiz foi categórico: o dever de informar sobre riscos é anterior ao procedimento. A sentença condenou Jacob e a clínica por danos morais e estéticos, confirmando ganho de peso, virilização, engrossamento do pescoço e alteração da voz.

O vácuo regulatório e a opinião de especialistas

O hepatologista Raymundo Paraná, professor da UFBA, afirma que as manifestações hepáticas e vasculares causadas pelo uso indevido de gestrinona e testosterona em mulheres são diversas: alteração de enzimas, icterícia, peliose hepática e tromboses. Antes, via um caso de trombose da veia porta sem cirrose a cada três ou quatro anos; no ano passado, internou cinco. Ele integra um consórcio internacional para monitorar casos de toxicidade por implantes. A sentença do TJSP detalha o vácuo regulatório: os implantes não têm aprovação da Anvisa para fins estéticos ou terapêuticos convencionais, são manipulados sem bula oficial e não permitem controle da taxa de liberação. A gestrinona não é reconhecida pela SBEM, FEBRASGO ou sociedades internacionais.

Paraná critica o modelo: "Emagrecer uma pessoa é fácil. Dar saúde é difícil. Quem faz disso um negócio sabe exatamente o que está fazendo." O Cremesp informou que investiga o ginecologista, mas as apurações tramitam sob sigilo.

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