Hospitais negam parceria com farmacêutica para fornecer medicamento contra obesidade no SUS
Os dois hospitais citados pela farmacêutica Novo Nordisk como parceiros em um projeto para fornecer gratuitamente o medicamento Wegovy pelo Sistema Único de Saúde (SUS) negam que exista qualquer acordo formal com a empresa para a iniciativa. A informação contradiz o anúncio feito pela companhia na última semana sobre um programa piloto no Brasil.
Programa piloto anunciado pela empresa
De acordo com a Novo Nordisk, o programa anunciado em março de 2026 tem como objetivo disponibilizar as canetas do medicamento Wegovy, que contém semaglutida e é usado no tratamento da obesidade, a pacientes atendidos pelo SUS. A proposta busca produzir dados e evidências sobre o impacto do uso da semaglutida injetável no tratamento da obesidade grave, contribuindo com evidências clínicas, econômicas e sociais que possam apoiar futuras decisões em saúde pública.
Segundo a proposta apresentada pela empresa, o projeto teria duração de dois anos e seria implementado em três instituições: Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre (RS); Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), no Rio de Janeiro; e uma terceira unidade que ainda não havia sido definida.
Negativas dos hospitais citados
No entanto, ambas as instituições de saúde negaram veementemente a existência de qualquer parceria formal com a farmacêutica. O Grupo Hospitalar Conceição afirmou categoricamente que não possui qualquer programa formalizado com a Novo Nordisk sobre semaglutida, conforme divulgado pela empresa.
Já o IEDE informou que já utiliza canetas injetáveis no tratamento da obesidade, mas explicou que há atualmente uma licitação aberta para a compra de medicamentos — processo que ainda não foi concluído. "A Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) informa que há um processo licitatório em andamento pela Fundação Saúde, gestora do IEDE, para aquisição da semaglutida", explicou em nota oficial.
Posição da Novo Nordisk
Em resposta às negativas, a empresa afirmou ao g1 que tem um programa de acesso equitativo, mas que a aquisição das canetas depende de processo licitatório. "Não há previsão de doação de medicamentos; qualquer aquisição por entes públicos seguirá os ritos e legislações vigentes de compras governamentais", explicou a farmacêutica.
Sobre o IEDE especificamente, a empresa enviou um comprovante de um termo de cooperação, mas relacionado à logística reversa para embalagens de canetas através do programa Reciclaneta. A Novo Nordisk afirma que o novo programa de acesso equitativo seria uma evolução dessa parceria anterior.
Contexto do medicamento no SUS
Atualmente, as canetas de semaglutida não estão disponíveis no SUS de forma ampla. Em 2024, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) recomendou não incorporar à rede pública os medicamentos à base de semaglutida e liraglutida, substâncias usadas em canetas injetáveis indicadas para perda de peso.
O alto custo foi apontado como a principal barreira para a incorporação dessas terapias ao sistema público. Alguns centros especializados, como o próprio IEDE, fazem uso desses medicamentos, mas apenas em casos específicos de pacientes — não sendo uma medicação disponível a qualquer pessoa no sistema.
Detalhes da proposta da empresa
Em nota mais detalhada, a Novo Nordisk esclareceu que:
- A linha de cuidado para obesidade grave no IEDE está em fase de atualização para incluir a semaglutida como opção terapêutica
- Este atendimento seria restrito a uma parcela específica de pacientes já acompanhados pela instituição
- Não há previsão de oferta do medicamento para novos pacientes fora das linhas de cuidado existentes
- O programa de Acesso Equitativo selecionará ao menos três localidades no Brasil para gerar evidências
- O objetivo é auxiliar o SUS na criação de estratégias sustentáveis para o tratamento da obesidade
A empresa reiterou seu compromisso com a transparência e com o fortalecimento da sustentabilidade dos sistemas de saúde, visando ampliar o acesso a tecnologias inovadoras de forma responsável. No entanto, a contradição entre o anúncio da farmacêutica e as negativas dos hospitais citados como parceiros permanece sem resolução definitiva.



