HC de Ribeirão Preto elabora plano emergencial diante de suspensão de atendimentos na Beneficência Portuguesa
A Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HC-UE) divulgou nesta quinta-feira, 29, um plano de trabalho detalhado para enfrentar o aumento esperado de pacientes. A medida surge como resposta à suspensão dos atendimentos de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde (SUS) no Hospital Beneficência Portuguesa de Ribeirão Preto, determinada pela Justiça por um período mínimo de 90 dias.
Decisão judicial motiva reestruturação no sistema de saúde
A juíza Lucilene Aparecida Canella de Melo, da 2ª Vara da Fazenda Pública, proibiu o município e o estado de encaminhar pacientes do SUS para a urgência e emergência da Beneficência Portuguesa. A decisão baseou-se em uma ação civil pública movida após inspeções do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) e da Vigilância Sanitária, que identificaram irregularidades graves na prestação dos serviços hospitalares.
Com a expectativa de lotação devido ao redirecionamento dos pacientes, a Prefeitura de Ribeirão Preto já anunciou mudanças na regulação dentro do município. Os pacientes serão direcionados para o HC-UE, Santa Casa e Santa Lydia, além da abertura de uma unidade de retorno assistencial. A Beneficência Portuguesa informou que está estruturando um plano conjunto para assegurar a continuidade da assistência aos usuários do SUS.
Estratégia do HC envolve complexo regulador interno e contratações
O plano do Hospital das Clínicas prevê a criação de um complexo regulador interno que dividirá as operações entre três unidades principais: a unidade de emergência no Centro, a unidade do campus da USP e o Hospital Estadual de Ribeirão Preto. A divisão será feita de acordo com a complexidade do tratamento necessário para cada paciente.
Anna Cristina Bertoldi, responsável pelo Centro de Terapia Intensiva (CTI) do HC-UE, explica o processo: "O médico regulador apresenta para nós esses casos e, diante disso, cada núcleo de regulação faz o filtro de qual paciente é pertinente para a complexidade do seu hospital."
Além da estrutura regulatória, os responsáveis pelo HC cogitam contratar horas extras de médicos, enfermeiros e auxiliares, caso seja necessário para atender a demanda adicional. Luís Stracieri, coordenador da unidade de emergência, afirma que já existe um consenso sobre essa possibilidade: "Isso a gente tem delineado com a superintendência para que, ocorrendo isso, dependendo da intensidade, que a gente já possa automaticamente começar a utilizar isso."
Preocupação com sobrecarga e impacto em outros serviços
O HC ressalta a importância da triagem adequada pelo município e pelo estado para evitar uma sobrecarga desnecessária. O hospital é uma referência para diferentes cidades do interior de São Paulo e foi estruturado especificamente para resolver casos de alta complexidade.
Stracieri expressa preocupação com o possível impacto em outros serviços: "É uma preocupação muito grande. O próprio Hospital das Clínicas, o campus, também tem uma função muito grande nas cirurgias eletivas, que são pacientes que também têm gravidade, por exemplo, pacientes oncológicos. Você não pode sobrecarregar o hospital com transferências."
Segundo Anna Bertoldi, os pacientes que mais devem impactar a unidade de emergência são aqueles com problemas cardiovasculares e ortopédicos, que antes eram atendidos na Beneficência Portuguesa. "Esses pacientes que iam para a Beneficência que vão impactar um pouco mais na unidade de emergência, o que a gente acredita, além dos pacientes ortopédicos, são os casos de cirurgias vasculares e infartos agudos do miocárdio. É uma emergência que deve ser resolvida em menos de 24 horas, muitas das vezes", detalha a responsável pelo CTI.
Fluxo de pacientes e transporte entre unidades
O plano estabelece que, uma vez dentro do complexo regulador do Hospital das Clínicas, o paciente poderá ser direcionado da unidade de emergência para o campus caso a internação ainda seja necessária, dependa de alguma especialidade ou de um acompanhamento de maior complexidade.
Para casos menos complexos, como aqueles que dependem de ajuste de insulina ou término de tratamento com antibiótico, a conduta será destinar os pacientes ao Hospital Estadual de Ribeirão Preto. Em todos os cenários, o transporte entre esses hospitais será de responsabilidade exclusiva do HC, utilizando ambulâncias próprias para agilizar as transferências.
Stracieri esclarece: "Hoje o complexo regulador não utiliza o Samu pra transporte entre hospitais do complexo regulador. Nós utilizamos a ambulância do HC inclusive para agilidade dessas transferências e abertura de leitos pra receber esses que vêm das unidades de pronto atendimento."
Monitoramento contínuo e adaptação às necessidades
Até o momento, o HC informa que ainda não foi possível perceber um aumento significativo na demanda na unidade de emergência, mas a expectativa é que isso comece a acontecer gradualmente. Em um primeiro momento, nenhum procedimento eletivo deve ser afetado, mas os coordenadores alertam que o aumento da demanda precisa ser solucionado de forma eficiente para não prejudicar outros serviços essenciais.
O hospital mantém um monitoramento contínuo da situação e está preparado para ajustar suas estratégias conforme a evolução do fluxo de pacientes. A prioridade é garantir que a população de Ribeirão Preto e região continue recebendo atendimento de qualidade, mesmo diante das mudanças impostas pela decisão judicial que afetou a rede de saúde local.