Gaslighting: violência psicológica eleva risco cardiovascular em mulheres em 41%
Gaslighting aumenta risco cardíaco em mulheres em 41%

Gaslighting: violência psicológica eleva risco cardiovascular em mulheres em 41%

Um tipo específico de violência psicológica, conhecido como gaslighting, está diretamente associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares em mulheres. Pesquisas indicam que essa forma de manipulação, que afeta majoritariamente o público feminino, eleva em impressionantes 41% as chances de desenvolver problemas cardíacos graves. O fenômeno, que inclui até mesmo o chamado 'gaslighting médico', representa um alerta urgente para a saúde pública e a necessidade de maior conscientização sobre seus impactos devastadores.

Origem do termo e enquadramento legal

O termo gaslighting tem origem no filme norte-americano "Gaslight", lançado em 1944. A produção cinematográfica retrata a história de um marido que, movido por interesses financeiros, planeja internar sua esposa em uma instituição psiquiátrica. Para alcançar seu objetivo, ele cria situações deliberadas para deixá-la confusa e insegura, inclusive manipulando o brilho das lâmpadas a gás da residência e depois negando ter feito qualquer alteração. Essa narrativa ficcional acabou batizando um padrão real de abuso psicológico que continua a afetar milhões de pessoas em todo o mundo.

No Brasil, o gaslighting está formalmente enquadrado como crime pela Lei nº 14.188/2021. A legislação reconhece essa prática como uma forma de violência que pode levar a sérios prejuízos tanto para a saúde mental quanto para a física das vítimas. Apesar dessa proteção legal, a epidemiologia do gaslighting ainda é um campo de estudo emergente, com pesquisas concentradas principalmente em países como Estados Unidos, Canadá, Itália, Paquistão, Inglaterra, Irlanda, Israel e Austrália.

Impactos na saúde cardiovascular feminina

Os efeitos do gaslighting na saúde cardiovascular das mulheres ocorrem por meio de dois caminhos distintos e igualmente preocupantes. Em primeiro lugar, estudos demonstram que mulheres submetidas a situações de manipulação psicológica, incluindo o gaslighting, apresentam 41% mais probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares (DCVs). Esse aumento significativo no risco está relacionado a uma série de fatores psicológicos e fisiológicos desencadeados pelo abuso constante.

Em segundo lugar, existe o fenômeno do 'gaslighting médico', que ocorre quando profissionais de saúde – frequentemente homens – minimizam ou ignoram sintomas e queixas apresentadas por pacientes mulheres. Nesses casos, as mulheres são convencidas de que está tudo bem, mesmo quando apresentam sinais claros de problemas de saúde. Essa atitude gera constrangimento e resiliência inadequada, fazendo com que muitas pacientes saiam dos consultórios desacreditando suas próprias percepções corporais.

Sintomas atípicos e subdiagnóstico

As mulheres enfrentam desafios únicos quando se trata de diagnóstico cardiovascular. Historicamente, elas têm sido subdiagnosticadas e subtratadas para condições cardíacas, em parte porque seus sintomas costumam ser menos característicos do que os apresentados por homens. Enquanto os homens frequentemente experimentam dor no peito clássica, as mulheres podem manifestar:

  • Fadiga incomum e persistente
  • Falta de ar sem explicação aparente
  • Náuseas e vômitos
  • Suor excessivo
  • Dor no abdômen, costas, pescoço, mandíbula ou garganta

Além disso, as mulheres carregam fatores de risco cardiovasculares exclusivos de sua condição biológica, como:

  1. Menopausa e suas implicações hormonais
  2. Hipertensão gestacional
  3. Diabetes gestacional
  4. Maior incidência de condições de saúde mental como ansiedade e depressão

A autonegligência também representa um problema significativo. Ao priorizar o bem-estar da família e as responsabilidades da rotina diária, muitas mulheres tendem a minimizar seus próprios desconfortos físicos, adiando a busca por atendimento médico mesmo quando apresentam sintomas preocupantes.

Estratégias de prevenção e enfrentamento

A prevenção das doenças cardiovasculares em mulheres requer uma abordagem multifacetada que considere tanto os fatores biológicos quanto os psicossociais. Para enfrentar especificamente o gaslighting, especialmente em contextos médicos, especialistas recomendam uma série de medidas práticas:

Documentação detalhada: Antes de consultas médicas, registre todas as ocorrências de sintomas com datas, periodicidade e circunstâncias específicas. Anote em quais situações ocorrem falta de ar, cansaço excessivo ou qualquer outro desconforto.

Acompanhamento durante consultas: Caso se sinta insegura, leve um acompanhante que possa ajudar a reforçar informações durante o atendimento médico. A presença de uma pessoa de confiança pode proporcionar suporte emocional e garantir que todas as queixas sejam adequadamente comunicadas.

Questionamento ativo: Não hesite em fazer perguntas sobre suas dúvidas e questionar a necessidade de exames que possam esclarecer a origem de seus sintomas. Um diálogo aberto com o profissional de saúde é fundamental para um diagnóstico preciso.

Busca por segunda opinião: Se o parecer médico não for conclusivo ou deixar uma sensação persistente de desconforto, procure a avaliação de um segundo profissional. Nunca menospreze sintomas – eles representam os únicos alertas que nosso corpo emite quando algo não está funcionando adequadamente.

As especialistas enfatizam que, assim como os fatores que levam às doenças cardiovasculares em mulheres são diversos, as estratégias de prevenção e contingência também devem ser abrangentes. Cada fase da vida feminina requer controles específicos e atenção personalizada, sem que qualquer sinal de alerta seja menosprezado ou ignorado.

Maria Cristina Izar é cardiologista, presidente da SOCESP (biênio 2024/2025) e professora adjunta livre docente da Disciplina de Cardiologia da Universidade Federal de São Paulo. Francisco Fonseca é cardiologista e presidente do 46° Congresso da SOCESP.