Fiocruz inicia estudo com PrEP injetável semestral em sete cidades brasileiras
Fiocruz testa PrEP injetável semestral em 7 cidades

Fiocruz inicia estudo pioneiro com PrEP injetável semestral em sete cidades do Brasil

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está à frente de um estudo inédito no Brasil com o lenacapavir, uma versão injetável da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP) que precisa ser aplicada apenas duas vezes ao ano. A pesquisa, batizada de ImPrEP LEN Brasil, será realizada em sete cidades: Campinas, Florianópolis, Manaus, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O objetivo é produzir evidências científicas que apoiem a avaliação do medicamento para futura incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), representando um avanço significativo na prevenção do HIV com maior facilidade de adesão.

Detalhes do estudo e público-alvo

O estudo ImPrEP LEN Brasil será voltado para um grupo específico da população, incluindo:

  • Homens gays e bissexuais
  • Pessoas não binárias designadas biologicamente ao sexo masculino
  • Pessoas transgênero

Os participantes devem ter entre 16 e 30 anos de idade. As doses do medicamento foram disponibilizadas pela farmacêutica Gilead Sciences, desenvolvedora do lenacapavir. No entanto, o início das aplicações ainda aguarda a chegada ao Brasil de agulhas específicas necessárias para a administração do fármaco, o que demonstra a complexidade logística envolvida em estudos de tal magnitude.

Mecanismo de ação e eficácia comprovada

O lenacapavir é considerado uma inovação farmacológica por seu mecanismo de ação único. Trata-se de um antirretroviral que atua como inibidor do capsídeo do HIV, a estrutura proteica que envolve o material genético do vírus. Ao interferir diretamente nessa "capa", o medicamento dificulta a entrada do HIV nas células humanas e compromete sua capacidade de replicação, o que explica seu potencial tanto terapêutico quanto preventivo.

Na análise para aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), realizada em 12 de janeiro, os dados clínicos apresentaram resultados impressionantes:

  • 100% de eficácia na redução da incidência de HIV-1 em mulheres cisgênero
  • Redução do risco de infecção em 96% em outros grupos, quando comparado ao risco antes do uso da PrEP

Esses resultados se somam a evidências internacionais robustas. Em 2024, um estudo conduzido com 5.338 mulheres em Uganda e na África do Sul demonstrou 100% de proteção contra a infecção pelo HIV. Além disso, o medicamento já foi aprovado para uso preventivo nos Estados Unidos, Canadá e em vários países da Europa, reforçando seu perfil de segurança e eficácia.

Caminho até a incorporação no SUS

A aprovação pela Anvisa é apenas o primeiro passo em um processo complexo até que o lenacapavir possa ser ofertado na rede pública de saúde. O medicamento ainda passará por várias etapas burocráticas e regulatórias:

  1. Definição de preço na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED)
  2. Avaliação pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec)
  3. Análise final pelo Ministério da Saúde

Embora não haja uma data definida para a eventual disponibilização no SUS, os estudos conduzidos pela Fiocruz indicam que já estão sendo dados passos concretos no sentido de uma possível incorporação à rede pública. A iniciativa ocorre em um momento estratégico, pouco mais de um mês após a aprovação regulatória, demonstrando a urgência e prioridade que o tema recebe no cenário nacional de saúde.

Impacto nas estratégias de prevenção ao HIV

Atualmente, o Brasil já oferece diferentes opções de PrEP pelo SUS, incluindo esquemas orais de uso diário e sob demanda. No entanto, os regimes de longa duração, como o lenacapavir, apresentam vantagens significativas em termos de adesão ao tratamento. Segundo a Anvisa, "o regime semestral mostrou boa adesão e persistência, superando desafios comuns em esquemas diários".

A discussão sobre novas tecnologias de prevenção também passa pelo combate ao estigma associado ao HIV. A PrEP, reforça a Anvisa, não deve ser alvo de críticas ou preconceito, mas entendida como uma ferramenta importante para evitar novas infecções e conter a disseminação do vírus. Esse entendimento vem sendo reforçado internacionalmente, com a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluindo o lenacapavir entre as opções recomendadas para PrEP e classificando o medicamento como "a melhor alternativa após uma vacina" no enfrentamento global ao HIV.

O estudo da Fiocruz representa, portanto, não apenas um avanço científico, mas também um passo crucial na democratização do acesso a tecnologias de prevenção de ponta, alinhando o Brasil com as melhores práticas internacionais no combate à epidemia de HIV/AIDS.