Ex-professor de natação relata problemas crônicos na água de academia onde aluna morreu em São Paulo
Um ex-professor de natação que atuou na academia C4 Gym, localizada no Parque São Lucas, Zona Leste de São Paulo, revelou que já observou graves problemas no tratamento da água da piscina durante seu período de trabalho em 2024. O depoimento surge no contexto da morte da aluna Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, e do aumento para sete o número de pessoas com suspeita de intoxicação relacionada ao local.
Relatos de desconforto físico e cheiros incomuns
Em entrevista à TV Globo, Thygo Araújo, que trabalhou na academia por três meses, descreveu situações recorrentes de irritação na pele e dificuldades respiratórias entre professores e alunos. "Já teve alguns momentos que a gente estava dando aula e sentia desconforto na pele, tipo pinicadas, e um cheiro diferente, que dava ardência no nariz e tosse", afirmou o ex-professor.
Araújo detalhou que um dos proprietários era responsável pelo tratamento da água e que, em uma ocasião específica, uma mistura mal preparada de produtos químicos obrigou a interrupção das aulas. "Ele fez uma mistura lá, a mistura saiu errada, e aí ele jogou na piscina das crianças, pequena. Ficou um cheirão forte, que a gente não conseguia ficar lá dentro", relatou.
Manutenção inadequada e resposta negligente
O manobrista Severino José da Silva, de 43 anos, responsável pela manutenção da piscina, forneceu à polícia informações preocupantes sobre a conduta dos proprietários. Ele afirmou que, ao perceber que as pessoas passavam mal no sábado (7), tentou contatar o dono Celso sem sucesso. O retorno só ocorreu horas depois, quando a academia já estava esvaziada, com o proprietário respondendo apenas: "Paciência".
Testemunhas e imagens de câmeras de segurança mostram um homem manipulando produtos químicos próximo à piscina enquanto alunos ainda estavam na água. A principal suspeita das autoridades é que a manipulação inadequada em espaço fechado com pouca ventilação tenha causado a intoxicação.
Vítimas e gravidade do caso
Além de Juliana Faustino Bassetto, que morreu horas após passar mal, outras seis pessoas necessitaram de atendimento médico:
- Vinicius de Oliveira (marido de Juliana): internado em estado grave na UTI com insuficiência respiratória
- Adolescente de 14 anos: internado em estado grave na UTI
- Aluna de 29 anos: internada na UTI com náuseas, vômitos e diarreia
- Aluno internado em leito comum
- Duas outras vítimas com estados de saúde não totalmente divulgados
Irregularidades e histórico de problemas
A academia C4 Gym apresentava diversas irregularidades:
- Não possuía alvará de funcionamento
- Apresentava instalações elétricas precárias
- Operava com dois CNPJs no mesmo endereço
- Já tinha histórico de reclamações desde abril de 2024
Mães de ex-alunos relataram que crianças desenvolveram problemas respiratórios, com uma mãe afirmando que o maiô da filha desbotou totalmente após uma aula devido aos produtos químicos. Outra criança desenvolveu crises de tosse e bronquiolite, forçando o cancelamento da matrícula.
Investigações em andamento
Os três sócios da academia devem ser ouvidos pela Polícia Civil. O delegado responsável afirmou que ainda está reunindo provas antes de realizar intimação formal. A unidade foi interditada e lacrada pela Vigilância Sanitária e Subprefeitura da Vila Prudente.
A polícia apreendeu amostras dos produtos químicos utilizados, mas ainda busca identificar a composição exata da mistura. As causas da morte de Juliana aguardam laudos periciais e necroscópicos, enquanto investigam possível omissão de socorro por parte dos responsáveis.
O pai da vítima, Ângelo Augusto Bassetto, fez um emocionado apelo: "Essa justiça deve ser feita não para termos de valor... é para não acontecer com mais ninguém". Ele relatou que a médica informou que o produto "queimou muito ela por dentro".
A direção da C4 Gym emitiu nota afirmando que "prestou imediato atendimento a todos os envolvidos" e está colaborando com as autoridades. Sobre as queixas anteriores, alegou reparo na máquina de ozônio à época. O caso segue sob investigação no 42º Distrito Policial.



