Epidemia de chikungunya força fechamento de escolas em aldeia indígena de Mato Grosso do Sul
As três escolas da Aldeia Jaguapiru, localizada na Reserva Indígena de Dourados, no Mato Grosso do Sul, permaneceram fechadas nesta quarta-feira (18) devido ao agravamento da situação epidemiológica da chikungunya na comunidade. A aldeia concentra atualmente o maior número de casos da doença entre as populações indígenas do município, com um aumento rápido nas últimas semanas que levou as autoridades a classificarem oficialmente a situação como uma epidemia.
Quarta morte confirmada e suspensão das atividades escolares
Segundo o mais recente boletim da Vigilância em Saúde, divulgado na segunda-feira (16), a Prefeitura de Dourados confirmou a quarta morte por chikungunya na Reserva Indígena. A maior escola da aldeia, a Tengatui Marangatu, ficou completamente fechada durante todo o dia, com o único movimento registrado na quadra esportiva, onde foi montada uma estrutura temporária para atender moradores que apresentam sintomas da doença.
A decisão de suspender as aulas foi tomada pelas próprias lideranças da aldeia, que avaliaram a gravidade da situação. O cacique da Aldeia Jaguapiru, Vilmar Machado, revelou que aproximadamente 30% dos alunos e nove professores da escola estão infectados com o vírus. "Tivemos uma reunião com os diretores para avaliar a situação das escolas, e a Escola Estadual Guateka está com vinte funcionários afastados e uma porcentagem significativa de alunos contaminados, situação similar ocorre na escola Tengatui", afirmou o líder indígena.
Divergências institucionais sobre as medidas adotadas
Em nota oficial, a Secretaria Estadual de Educação confirmou a paralisação apenas na escola estadual da região. No entanto, a prefeitura municipal não reconhece formalmente a medida de fechamento e informou que a Procuradoria-Geral do município vai avaliar quais providências poderão ser tomadas em caso de fechamento definitivo das unidades escolares. Esta divergência entre as esferas de governo demonstra a complexidade administrativa no enfrentamento da crise sanitária.
Falta de água e condições precárias favorecem proliferação do mosquito
De acordo com Rivaldo Venâncio, chefe de gabinete da presidência da Fiocruz, o aumento exponencial dos casos está diretamente ligado à falta de medidas preventivas adequadas. "Só temos transmissão desses vírus transmitidos pelo Aedes aegypti se o mosquito estiver presente em quantidade significativa", explicou o especialista. Ele destacou ainda que a falta de abastecimento regular de água para uso doméstico dentro da aldeia leva ao armazenamento inadequado em recipientes, criando condições ideais para a proliferação do mosquito transmissor.
Para conter o avanço da doença, equipes da Secretaria Municipal de Saúde já realizam um mutirão nas aldeias Jaguapiru e Bororó, com apoio adicional de profissionais de Itaporã e do Governo do Estado. A Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS) chegará ao local nesta quinta-feira (19) para reforçar as ações de combate à epidemia.
Cenário epidemiológico alarmante na Reserva Indígena
O balanço atual da situação na Reserva Indígena de Dourados apresenta números preocupantes:
- Total de 407 casos registrados
- 202 casos confirmados de chikungunya
- 181 casos em investigação
- 24 casos descartados
- Quatro mortes confirmadas
As vítimas fatais identificadas até o momento são:
- Mulher de 69 anos (Aldeia Jaguapiru, em 26 de fevereiro)
- Homem de 73 anos (Aldeia Jaguapiru, em 9 de março)
- Bebê de 3 meses (Aldeia Bororó, em 10 de março)
- Mulher de 60 anos (Aldeia Jaguapiru, em 12 de março)
Comparativo com a área urbana e histórico da doença
Na área urbana de Dourados, também houve aumento significativo de casos. Em 2026, já são 912 notificações, com 379 confirmações, 383 exames aguardando resultado e 150 casos descartados. Até o momento, não foram registradas mortes por chikungunya fora da Reserva Indígena.
Um dado que chama atenção é que, mesmo com população consideravelmente maior — aproximadamente 264 mil habitantes na área urbana contra cerca de 20 mil na Reserva Indígena —, a proporção de casos nas aldeias é substancialmente mais elevada. Os números atuais já superam todo o ano de 2025, quando foram registrados 184 casos confirmados e uma única morte em todo o município, incluindo a Reserva Indígena.
Sobre a doença chikungunya
A chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue e do zika vírus. Os principais sintomas incluem:
- Febre alta de início súbito
- Dores intensas nas articulações
- Cansaço extremo e mal-estar geral
Em casos mais graves, a doença pode provocar complicações neurológicas sérias, como encefalite, meningite e até paralisia temporária. A recuperação completa pode ser um processo lento, com muitos pacientes relatando dores articulares persistentes por meses após a fase aguda da infecção.



