Dispositivos médicos irregulares inundam o comércio virtual e ameaçam saúde pública
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta urgente sobre a invasão de dispositivos médicos e medicamentos piratas no e-commerce brasileiro. Um relatório exclusivo obtido pela revista VEJA revela um cenário alarmante: quase metade dos nebulizadores e mais de um terço dos medidores de pressão arterial vendidos online são produtos irregulares, representando um grave risco à saúde pública e gerando milhões em lucro ilegal.
Operação da Anvisa apreende milhares de itens em Santa Catarina
Na última semana, a Anvisa deflagrou uma operação focada em plataformas de e-commerce, identificando a presença de medidores de pressão, nebulizadores e oxímetros sem a devida regulamentação. A ação resultou na apreensão de 23.000 frascos irregulares de Mounjaro em Santa Catarina, somando-se às investigações sobre suplementos e canetas emagrecedoras manipuladas ou contrabandeadas, fenômeno conhecido como "Mounjaro do Paraguai".
Relatório expõe alta porcentagem de produtos não regulamentados
De acordo com o relatório da consultoria Nubimetrics, 36% dos medidores de pressão e 46% dos nebulizadores vendidos pela internet no Brasil são produtos não regulamentados. Oriundos principalmente da China, esses dispositivos têm aumentado sua participação no mercado digital, passando de 17,3% para 31,7% em apenas um ano, enquanto marcas regulamentadas caíram de 82,1% para 67,6%. Em termos financeiros, isso representa um lucro de 14 milhões de reais para os vendedores ilegais.
Riscos graves para a saúde dos consumidores
Os dispositivos médicos irregulares podem causar sérios danos à saúde. Nebulizadores contaminados por bactérias e solventes, por exemplo, não apenas falham em aliviar crises respiratórias, mas também podem liberar substâncias tóxicas, causando náuseas, lesões no fígado, rins e sistema nervoso. A pediatra Lygia Börder, vice-presidente do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria de São Paulo, alerta que crianças são especialmente vulneráveis devido às suas vias aéreas mais sensíveis.
No caso dos medidores de pressão irregulares, os riscos incluem aferições incorretas que podem mascarar hipertensão ou levar ao uso desnecessário de medicação, aumentando o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e falência renal. O nefrologista Decio Mion, professor da USP, destaca que muitos pacientes dependem dessas medições caseiras para evitar o "efeito do avental branco", tornando a precisão dos aparelhos crucial.
Fiscalização em marketplaces e resposta das plataformas
A operação da Anvisa no centro logístico do Mercado Livre identificou 1.677 unidades de medidores de pressão sem registro ou certificação do Inmetro. Daniel Meirelles Fernandes Pereira, diretor da agência, afirmou que a fiscalização em marketplaces é essencial para garantir que o avanço do comércio digital não comprometa a segurança da população. Em resposta, o Mercado Livre declarou que trabalha para "zerar a presença de qualquer produto irregular" e que a fiscalização resultou na retenção de apenas 0,34% dos itens regulados no local.
Expansão para medicamentos e alertas para consumidores
Além dos dispositivos médicos, a Anvisa também tem focado em medicamentos piratas, como as canetas emagrecedoras à base de semaglutida e tirzepatida. Em Florianópolis, foram encontrados 23.000 frascos de tirzepatida sem testes de controle de qualidade, evidenciando a circulação de fórmulas não regulamentadas, mesmo com a proibição de importação. O endocrinologista Alexandre Hohl, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, alerta que esses produtos criam um "caos em saúde pública", sem garantias de segurança ou transporte adequado.
Para se proteger, os consumidores devem desconfiar de preços tentadores, verificar se o manual está em português com informações claras, e procurar selos de garantia e assistência técnica. A compra de medicamentos deve ser feita apenas em farmácias credenciadas, evitando opções fracionadas ou manipuladas sem indicação médica.
Conclusão: vigilância e prudência são essenciais
Diante da invasão de produtos piratas no comércio virtual, as fiscalizações da Anvisa se tornaram mais urgentes, e os consumidores devem exercer senso crítico. A precisão e segurança dos equipamentos médicos são requisitos inegociáveis, e a prudência ao navegar nas ofertas online pode salvar vidas. A saúde pública agradece a vigilância contínua e a conscientização dos brasileiros.



