Desigualdade social impulsiona obesidade no Brasil, alerta especialista
Desigualdade social aumenta obesidade no Brasil

Desigualdade social é fator crucial no aumento da obesidade no Brasil, aponta análise

Mais da metade da população brasileira apresenta excesso de peso, com índices de obesidade dobrando ao longo das últimas décadas. Dados recentes do Ministério da Saúde revelam que 62,6% dos brasileiros estão acima do peso ideal, enquanto a taxa de obesidade saltou de 11,8% para 25,7% em apenas 18 anos.

Alimentos saudáveis são menos acessíveis para populações vulneráveis

O endocrinologista Rodrigo Lamounier, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, destacou durante participação no Conexão Record News que a desigualdade social influencia diretamente os hábitos alimentares da população. "Em muitos lugares no Brasil é muito mais fácil comprar um pacotinho de batata do que um legume fresco ou uma fruta", afirmou o especialista, ressaltando que essa realidade não se limita apenas à disponibilidade, mas também ao custo dos alimentos.

Lamounier explicou que a obesidade tende a ser mais comum em países em desenvolvimento e que as classes menos favorecidas concentram a maioria dos casos. Essa situação contribui para o desenvolvimento de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, cujos diagnósticos também apresentaram aumento significativo entre adultos brasileiros.

Tratamento requer mudanças estruturais e políticas públicas

O médico enfatizou que pequenas mudanças na rotina podem trazer resultados significativos, como caminhar até o trabalho e incorporar atividades físicas regulares. No entanto, ele alertou que o tratamento da obesidade vai além das escolhas individuais. "O fundamental é construir um hábito e uma rotina diária com mais atividade física e com calorias de alta qualidade", afirmou Lamounier.

Entre as medidas propostas pelo especialista estão:

  • Maiores investimentos em transporte público, calçadas e áreas de lazer
  • Taxação de alimentos ultraprocessados em favor de alimentos naturais e orgânicos
  • Políticas que promovam acessibilidade a alimentos saudáveis em todas as regiões

Obesidade infantil e desafios de longo prazo

Lamounier também abordou o preocupante cenário da obesidade infantil, destacando que mais de 90% das crianças obesas tendem a se tornar adultos obesos. O problema pode começar ainda durante a gestação, já que crianças que nascem com peso elevado têm maior risco de desenvolver obesidade e diabetes na vida adulta.

O médico ressaltou que manter a perda de peso ao longo dos anos é um desafio significativo, pois o organismo tende a se adaptar metabolicamente para retornar ao peso anterior. Por isso, o tratamento da obesidade requer monitoramento constante e esforço permanente.

Lamounier ainda alertou sobre o uso abusivo de medicamentos para emagrecimento, como as chamadas "canetas emagrecedoras", destacando que a banalização desses produtos diminui sua efetividade. Além disso, ele apontou que muitos pacientes que precisariam desses tratamentos não têm acesso devido aos custos elevados.

O especialista encerrou com um apelo por políticas públicas mais robustas, afirmando que avanços como a melhoria na qualidade dos lanches escolares e a redução de ultraprocessados representam conquistas importantes, mas que ainda há muito a ser feito para enfrentar essa epidemia de saúde pública.