Desigualdade brutal na saúde: Sudeste concentra 3,7 médicos por mil habitantes, Norte apenas 1,7
O Sistema Único de Saúde (SUS), reconhecido como o maior sistema universal do mundo, enfrenta um desafio histórico: a distribuição extremamente desigual de profissionais médicos pelo território brasileiro. Enquanto a região Sudeste ostenta a maior razão de médicos por mil habitantes, com impressionantes 3,7 profissionais, a região Norte do país apresenta a menor proporção, com apenas 1,7 médicos para cada mil pessoas, segundo dados da publicação Demografia Médica no Brasil 2025.
Concentração alarmante em poucas cidades
Os números revelam uma realidade preocupante: quase 60% dos médicos em atividade no Brasil estão concentrados em apenas 48 cidades com mais de 500 mil habitantes. Estas cidades abrigam 31% da população brasileira, mas detêm 58% dos profissionais de medicina. Em contraste, 4.895 municípios com até 50 mil habitantes contam com apenas cerca de 8% dos médicos para atender aproximadamente um terço da população do país.
O Distrito Federal se destaca com a maior razão nacional, apresentando 6,2 médicos por mil habitantes, enquanto o Maranhão registra a menor proporção, com apenas 1,2 médico por mil habitantes – quase três vezes menos que a média nacional de 3 médicos por mil habitantes.
Desigualdades regionais se aprofundam fora das capitais
A análise da distribuição de médicos fora das capitais evidencia diferenças ainda mais significativas. A região Sudeste mantém a liderança com 2,6 médicos por mil habitantes, seguida pelo Sul (2,3), Centro-Oeste (1,5), Nordeste (0,95) e Norte (0,75). O estado de São Paulo apresenta a maior concentração no interior, com 2,7 médicos por mil habitantes, enquanto estados da região Norte, como Amazonas (0,20) e Roraima (0,13), possuem as menores razões do país.
Felipe Proenço de Oliveira, secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, reconhece o problema: "Temos buscado modificar esse cenário de má distribuição de profissionais e, principalmente, vincular as iniciativas de ampliar acesso, de garantir atendimento para a população".
Impacto direto na mortalidade neonatal
Esta desigualdade na distribuição de profissionais de saúde tem consequências graves e mensuráveis. Em 2025, a taxa de óbitos de menores de 1 ano no Brasil foi de 12,2 por mil nascidos vivos, com cerca de 50% dos óbitos ocorrendo na primeira semana de vida. A maioria dessas mortes está relacionada a afecções neonatais que, segundo o Ministério da Saúde, poderiam ser evitadas em aproximadamente 70% dos casos com a qualificação do cuidado perinatal, neonatal e obstétrico.
Oliveira avalia que: "Ainda é um desafio conseguir diminuir mais a mortalidade nesse período neonatal, dos primeiros dias após o nascimento. Ter um profissional especialista nessas áreas e em localidades que antes não tinham vai impactar nos índices de mortalidade neonatal e, consequentemente, na mortalidade infantil".
Escassez crítica de especialistas em enfermagem neonatal
Os dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) revelam outra faceta do problema: em 2025, apenas 893 profissionais de enfermagem neonatal constavam no sistema, com a maioria (53%) concentrada na região Sudeste. A oferta de especializações em enfermagem neonatal no Brasil é limitada e desigual – dos 61 cursos registrados no sistema e-MEC em 2025, apenas 3 eram públicos, enquanto 58 eram privados.
Para enfrentar este déficit, o Ministério da Saúde anunciou a qualificação de 310 profissionais, com vagas especialmente direcionadas para as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, particularmente na Amazônia Legal, onde a escassez é mais crítica.
Investimentos para reequilibrar a distribuição
O Ministério da Saúde tem implementado diversas iniciativas para enfrentar essas desigualdades históricas. Além da qualificação de enfermeiros neonatais, estão sendo construídas 37 novas maternidades no país, com atenção especial aos desequilíbrios regionais. Também está em curso a ampliação de vagas para residência médica em diferentes especialidades, com prioridade para as regiões Norte e Nordeste, que apresentam as menores médias de médicos por mil habitantes (1,7 e 2,2, respectivamente).
Oliveira enfatiza a necessidade de um planejamento cuidadoso: "Não basta construir mais hospitais. É preciso planejar e garantir uma formação de profissionais conforme a necessidade. O Brasil precisa de mais especialistas e especialistas mais bem distribuídos".
Este processo de estruturação, embora demorado, é considerado fundamental para o futuro do SUS e para a redução das desigualdades históricas na área da saúde brasileira. A concentração de profissionais em algumas regiões e a escassez em outras continuam a representar um dos maiores desafios para o sistema de saúde pública do país.



