Estudo da USP revela que curativo moderno pode revolucionar tratamento de queimaduras no Brasil
Um curativo de espuma com prata iônica, já disponível no mercado brasileiro mas ainda pouco utilizado na rede pública de saúde, demonstrou potencial para transformar o tratamento de queimaduras profundas. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) conduziram um ensaio clínico que comparou o método tradicional com esta tecnologia mais avançada, com resultados impressionantes em termos de eficácia clínica e economia de recursos.
Metodologia do estudo e comparação entre tratamentos
A pesquisa acompanhou 40 pacientes internados na Unidade de Queimados do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo. Metade dos participantes recebeu o tratamento padrão, que consiste na aplicação diária de creme de sulfadiazina de prata com trocas frequentes de curativos. A outra metade utilizou o curativo moderno de espuma com prata, que pode permanecer na pele por até uma semana, reduzindo significativamente a necessidade de manipulação das feridas.
O estudo foi desenvolvido durante o doutorado do cirurgião plástico Juliano Baron Almeida, sob orientação do professor Jayme Adriano Farina Junior, e teve seu artigo aceito para publicação na Journal of Wound Care, com previsão de saída no segundo semestre deste ano.
Resultados clínicos: menos dor e internação mais curta
Durante o período de internação, os pesquisadores avaliaram múltiplos parâmetros, incluindo dor, desconforto, incidência de infecções, necessidade de enxertos adicionais, tempo de hospitalização e custo total do tratamento. Os pacientes que utilizaram o curativo moderno relataram menos dor tanto em repouso quanto durante as trocas, além de menor desconforto geral.
O cirurgião Juliano Baron Almeida explica que a rotina tradicional é particularmente desgastante: "O paciente queimado precisa trocar o curativo todo dia. Isso dói muito, muitas vezes exigindo medicação com morfina. É um sofrimento repetido. Quando você reduz essas trocas para uma vez por semana, a experiência muda completamente".
Além da redução da dor, o estudo constatou uma diminuição significativa no tempo médio de internação, que caiu de 29,6 dias para 20,7 dias - uma redução de aproximadamente nove dias. Para pacientes graves que frequentemente necessitam de enxertos de pele e permanecem hospitalizados por semanas, essa antecipação da alta representa uma diferença substancial tanto para o bem-estar do doente quanto para a otimização dos recursos hospitalares.
Impacto econômico: economia superior a 30% no custo total
Apesar do custo unitário mais elevado - cada placa do curativo moderno custava R$ 202,50, enquanto um pote de sulfadiazina saía por R$ 21,70 -, a análise financeira revelou uma economia significativa no custo total do tratamento.
Os cálculos incluíram diárias hospitalares, medicamentos, equipe médica, centro cirúrgico e materiais utilizados. O custo médio por paciente foi de:
- R$ 28.250,19 com o tratamento tradicional
- R$ 19.600,21 com o curativo moderno de espuma com prata
Isso representa uma economia de R$ 8.649,98 por paciente, equivalente a uma redução de 30,6% nos gastos totais. O pesquisador destaca que o principal peso financeiro está na internação hospitalar, sendo a diária na Unidade de Queimados avaliada em R$ 698,34.
Barreiras para adoção na rede pública
Apesar dos resultados promissores, o curativo moderno ainda não é adotado de forma rotineira na rede pública de saúde. Segundo Almeida, o principal obstáculo é o custo inicial mais alto por unidade, que dificulta a compra em larga escala pelos hospitais.
"Quando você olha só o preço do material, ele assusta. A placa custava cerca de R$ 200, enquanto a pomada custava R$ 30. Sem estudos mostrando o custo total do tratamento, os hospitais acabam escolhendo o que parece mais barato na prateleira. O que a gente mostrou é que, no fim, ele sai mais econômico", explica o pesquisador.
O produto possui registro válido na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e é indicado para feridas com exsudação leve a moderada e queimaduras superficiais, podendo ser usado sob supervisão profissional. A pesquisa da USP testou especificamente a tecnologia em queimaduras profundas, um grupo onde ainda existem poucos estudos, demonstrando sua efetividade neste contexto mais complexo.
Perspectivas futuras e implicações para o SUS
O Ministério da Saúde informou que o Sistema Único de Saúde oferece diferentes tipos de curativos e que a escolha depende dos protocolos de cada hospital, considerando evidências científicas e custo-efetividade. Na prática, contudo, o uso do curativo moderno ainda é pontual e não se tornou padrão na maioria das instituições públicas.
Para Almeida, os dados da pesquisa indicam que esta tecnologia pode se tornar uma alternativa viável ao modelo tradicional no tratamento de queimaduras mais graves: "Se a gente consegue tratar melhor, causar menos dor e ainda gastar menos dinheiro público, é uma mudança que faz sentido. O objetivo é melhorar a vida do paciente e usar melhor os recursos do sistema de saúde".
A pesquisa representa um passo importante na demonstração de que investimentos em tecnologias médicas mais avançadas podem, paradoxalmente, resultar em economias significativas para o sistema de saúde quando considerados os custos totais do tratamento, além de proporcionar benefícios clínicos substanciais para os pacientes.