Brasil enfrenta crise na saúde pública com envelhecimento acelerado da população
Demora no atendimento, falta de serviços especializados e carência de profissionais capacitados. Esses são apenas alguns dos obstáculos mais frequentes identificados por especialistas e pacientes quando se discute a saúde pública voltada para a população idosa no Brasil. A situação se agrava diante do paradoxo de um país historicamente jovem que agora envelhece em ritmo acelerado, um tema tão relevante que inclusive inspirou a redação do Enem 2025.
Demografia em transformação
Um estudo recente do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) revela um dado alarmante: a população idosa brasileira deve dobrar em apenas 25 anos. Projeções indicam que, até 2031, o número de pessoas com mais de 60 anos superará o de crianças no país. Este contexto social impõe uma urgência na preparação do sistema de saúde para atender um contingente cada vez maior de idosos, não apenas com quantidade, mas com qualidade mínima garantida.
Os cinco desafios principais segundo especialistas
A professora Nereida Kilza da Costa Lima, da Divisão de Clínica Médica Geral e Geriatria do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP), elencou cinco pontos críticos que considera fundamentais para o cuidado com a saúde dos idosos:
- Acesso ao sistema de saúde: Muitos idosos enfrentam dificuldades de locomoção, necessitando de ajuda para chegar às unidades ou de visitas domiciliares. A Estratégia Saúde da Família surge como uma solução potencial, mas requer ampliação.
- Espera por consultas e exames: O tempo de espera varia conforme a região, mas em muitos casos é excessivamente longo. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação mostram que mais de 1,3 milhão de pacientes aguardam por cirurgias eletivas no SUS em 2024.
- Detecção precoce de alterações: O atendimento atual frequentemente foca em queixas imediatas, negligenciando a identificação precoce de problemas funcionais, cognitivos, visuais, auditivos, nutricionais e de humor.
- Capacitação de profissionais: Há uma carência significativa de profissionais especializados em gerontologia e geriatria, o que compromete a qualidade do atendimento.
- Reabilitação dos pacientes: Centros de reabilitação são escassos e mal distribuídos, dificultando o acesso a serviços essenciais como fisioterapia e terapia ocupacional.
Perfil de saúde dos idosos brasileiros
Adriana Serafim Bispo e Silva, enfermeira e chefe do setor de Ações Programáticas em Atenção Primária de Ribeirão Preto, destaca as condições mais comuns que levam idosos a buscar atendimento: perda auditiva, doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e depressão. O estudo do IEPS confirma que, embora vivam mais, os idosos acumulam múltiplas doenças crônicas que consomem grande parte dos recursos hospitalares do SUS.
"Conforme as pessoas alcançam faixas de envelhecimento mais prolongado, especialmente acima de 80 anos, a incidência dessas doenças aumenta significativamente", explica Adriana. "Isso exige uma reorganização dos serviços de saúde e investimentos financeiros relevantes para garantir os direitos desses cidadãos."
Ela também alerta para o risco de quedas, que podem ter consequências graves e duradouras, muitas vezes exigindo próteses ou causando complicações devido a condições crônicas preexistentes.
Fatores sociais determinantes
Adriana ressalta que a qualidade de saúde dos idosos é influenciada por diversos fatores sociais, incluindo histórico profissional, rede de apoio, renda, gênero e local de residência. "Alimentação, nutrição, sono, atividade física e relacionamentos interpessoais fortalecem o envelhecimento saudável. Precisamos pensar nisso desde a primeira infância, pois o impacto do envelhecimento exponencial será ainda maior no futuro", complementa.
A perspectiva dos usuários
Helvio Matzner, engenheiro eletrônico de 70 anos e usuário do SUS em Ribeirão Preto, compartilha sua experiência: "A demora é um problema, mas também gostaria que mais unidades oferecessem atendimentos exclusivos para idosos. Alguns hospitais têm o selo 'Amigo da Pessoa Idosa', mas não vejo atividades concretas em torno disso".
Matzner, que pratica vôlei adaptado, defende a importância do esporte personalizado para a saúde dos idosos. "O esporte é crucial para a longevidade. Não se trata apenas de caminhar, mas de engajar-se seriamente em atividades prazerosas que mantenham o corpo dinâmico", finaliza.
Este cenário complexo demanda ações imediatas e planejamento de longo prazo para que o Brasil possa oferecer uma saúde pública digna à sua população que envelhece rapidamente.



