O governo do Rio de Janeiro deixou de executar projetos ou reduziu metas que poderiam reforçar ações de inteligência na área de segurança nos últimos dois anos. Além disso, cortou pela metade a verba prevista no orçamento da Secretaria de Segurança para a subfunção 'Informação e Inteligência' em 2025. A implantação de um centro tecnológico de inteligência foi excluída do planejamento governamental e o projeto de criar agências de inteligência em 12 delegacias foi adiado. A meta de capacitar quase 1.200 policiais em temas de inteligência foi reduzida para 477.
Falta de investimento compromete operações
As informações sobre os projetos e a capacitação constam no último relatório de avaliação das atividades executadas pelo governo, referente a 2024 e divulgado em março de 2025. Dados orçamentários da Secretaria da Fazenda estavam disponíveis até outubro. O Rio de Janeiro tem se consolidado como refúgio para chefes do tráfico de outros estados, que se aproveitam da complexidade territorial e da atuação fragmentada das forças de segurança para se esconder.
Embora a polícia realize operações frequentes, muitas não resultam na prisão dos principais líderes criminosos. Um exemplo foi a Operação Contenção, em outubro de 2024, nos complexos da Penha e do Alemão, que terminou com 122 mortos — a mais letal da história do país — e não capturou alvos centrais, como o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, ainda foragido.
Especialistas apontam necessidade de inteligência integrada
Para Karine Vargas, economista e coordenadora do Observatório de Orçamento da UERJ, o baixo orçamento de inteligência influencia os resultados. 'Não é suficiente para pensar em uma polícia bem preparada, com tecnologia de ponta e investigação precisa', afirmou. Em nota, o governo do RJ informou investimento de mais de R$ 377,5 milhões em equipamentos de inteligência, incluindo câmeras, softwares e drones. A Polícia Civil aplicou mais de R$ 201 milhões em ações de inteligência, tecnologia e estrutura.
O capitão Daniel Ferreira de Souza, da Subsecretaria de Inteligência da PM, disse em reunião no Congresso que o resultado da megaoperação foi 'ínfimo' diante do poder do Comando Vermelho. Ele defendeu que a inteligência é essencial, mas relegada a segundo plano. 'As agências de inteligência podem ser uma saída para obter melhores resultados', afirmou.
Projetos adiados e metas reduzidas
O projeto de criar agências de inteligência em 12 delegacias foi adiado para o segundo semestre de 2025. Nenhuma agência existe até o momento. O centro tecnológico de inteligência na Polícia Civil foi excluído do planejamento. A meta de capacitação de policiais civis caiu de 1.192 para 477 agentes. Em 2024, 801 policiais foram capacitados, número maior que a meta atualizada, mas menor que o previsto inicialmente.
Cristiano Maronna, diretor do Justa, destaca que a segurança pública no RJ tem como pilar a PM, enquanto a Polícia Civil, responsável pela investigação, é subfinanciada. 'Isso enfraquece a capacidade de esclarecer crimes e desmantelar organizações criminosas', disse. Vargas concorda: ao não priorizar inteligência, o governo opta por policiamento ostensivo, inadequado para enfrentar o crime organizado de forma estrutural.
Orçamento de inteligência cortado pela metade
O orçamento de segurança pública em 2025 foi de R$ 24,08 bilhões. Desse total, menos de meio centavo a cada R$ 100 foi destinado à subfunção 'Informação e Inteligência', pouco mais de R$ 1 milhão. A dotação inicial era de R$ 2,3 milhões, mas foi cortada em mais da metade, e a verba acabou em julho. A redução contrasta com o aumento de quase 24% no orçamento total da segurança.
Nem todos os gastos com inteligência estão nessa subfunção, havendo ações pulverizadas, o que dificulta o controle. O governo confirmou que o aparato de inteligência não está em uma única rubrica. Vargas critica a falta de transparência: 'Quando os gastos não são detalhados, fica difícil identificar falhas de alocação'.
Investimento não é perene
Desde 2021, os gastos na subfunção aparecem anualmente. Em 2021, foram empenhados R$ 23,4 milhões. Em 2022, caiu para R$ 3,3 milhões. Em 2023, apenas R$ 1,7 milhão foi pago, 90% a menos que o previsto. Em 2024, houve aumento para R$ 14,3 milhões empenhados, mas a economista Úrsula Peres, da USP, ressalta que o investimento não é perene e ainda está longe do necessário.
O recurso empenhado em 'Informação e Inteligência' em 2024 correspondeu a 0,08% do orçamento total da segurança (R$ 16,4 bilhões). Foi a segunda menor subfunção. Em 2025, 'Formação de Recursos Humanos' recebeu 0,06%, também baixo. Vargas afirma que a baixa aplicação impacta diretamente a estratégia das operações e a qualificação dos policiais.
Polícia técnico-científica perde verba
A verba para a polícia técnico-científica caiu quase pela metade entre 2022 e 2025, de R$ 53 milhões para menos de R$ 30 milhões. Segundo o Instituto Sou da Paz, apenas 1 em cada 4 assassinatos no RJ é esclarecido, percentual que vem caindo. O governo informou investimentos em câmeras operacionais portáteis (R$ 207 milhões), câmeras embarcadas (R$ 116 milhões) e drones (R$ 2,5 milhões), além de R$ 30,3 milhões em microcomputadores e soluções de backup.
Em nota, o governo destacou a inauguração da Central de Inteligência da Polícia Civil, com softwares como o Celebrite, contratos de R$ 19,8 milhões, e o Centro Integrado de Comando e Controle, com sistema de reconhecimento facial que prendeu mais de 500 foragidos. A nota afirma que o enquadramento das despesas fica a critério de cada órgão e que todo o aparato de inteligência não está em uma única rubrica.



