Brasil é primeiro das Américas a adotar programa da OMS para famílias de crianças com autismo
Brasil adota programa da OMS para famílias de crianças com autismo

Brasil é primeiro das Américas a adotar programa da OMS para famílias de crianças com autismo

O Ministério da Saúde deu início nesta semana à implementação de um programa internacional para capacitar famílias e cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou deficiência em todo o território nacional. O Brasil se torna o primeiro país das Américas a adotar essa iniciativa como política pública de governo, marcando um avanço significativo na área da saúde e dos direitos das pessoas com deficiência.

Treinamento prático começa no Rio Grande do Norte

O primeiro treinamento prático do programa, denominado Caregiver Skills Training (CST) ou Treinamento de Habilidades para Cuidadores, ocorreu no Instituto de Ensino e Pesquisa Alberto Santos Dumont (ISD), localizado em Macaíba, na Grande Natal. A atividade contou com a presença de três formadores internacionais da Organização Mundial da Saúde (OMS), que desenvolveram o programa em parceria com a Unicef.

Arthur Medeiros, coordenador-geral de Saúde da Pessoa com Deficiência do Ministério da Saúde, explicou que a escolha do ISD como sede do treinamento se deve ao fato de o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi, vinculado ao instituto, ser uma referência nacional na rede de cuidados à pessoa com deficiência.

Capacitação em cascata para alcançar todo o país

A preparação inicial envolveu 24 profissionais de nível superior, incluindo representantes do Instituto Santos Dumont, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do próprio Ministério da Saúde. Esses profissionais, que iniciaram sua formação de forma virtual ainda no ano passado e devem concluí-la em junho, atuarão como supervisores referências na implementação do programa em escala nacional.

A estratégia do Ministério da Saúde prevê um sistema de capacitação em cascata:

  1. Os 24 supervisores formarão 240 instrutores, com treinamento de seis a sete meses.
  2. Cada estado brasileiro terá seu próprio instrutor, responsável por capacitar os facilitadores.
  3. Os facilitadores serão os profissionais que conduzirão diretamente as atividades com as famílias e cuidadores.

Arthur Medeiros destacou que "a gente vai escalonando para que se consiga chegar em todos os municípios, se possível", demonstrando o compromisso com a abrangência nacional do programa.

Impacto imediato nas famílias participantes

Durante o treinamento, os supervisores tiveram a oportunidade de praticar os ensinamentos com famílias e crianças. Robervânia Souza, mãe potiguar de um menino de 2 anos com suspeita de autismo, foi uma das primeiras a receber orientações no Brasil. Ela relatou que, após apenas dois dias de treinamento, seu filho começou a pronunciar palavras que nunca havia dito antes.

"Eu vi hoje mesmo que ele pronunciou umas coisas que ele nunca tinha pronunciado. Quando eu cheguei em casa, ele já falou o nome 'uva', que ele não tinha falado. Então, ele já se dispôs a falar. Eu fiquei muito emocionada por isso", contou Robervânia.

Luana Aprígio, fonoaudióloga que participou do treinamento, reforçou a importância do programa ao observar transformações significativas mesmo em pouco tempo: "É muito bonito, mesmo apenas em uma semana, ou às vezes em duas sessões, ver a transformação da forma como as famílias lidam com seus filhos, e os ganhos que as crianças já demonstram".

Metas ambiciosas e investimentos planejados

O Ministério da Saúde estabeleceu metas ambiciosas para o programa. A expectativa é que aproximadamente 1,3 mil famílias já sejam beneficiadas ainda durante a fase de formação, em 2026, recebendo intervenções durante os períodos de treinamento. Para 2027, com a expansão completa do programa, a previsão é alcançar até 72 mil famílias em todo o país.

O programa integra as ações do Programa Agora Tem Especialistas e está alinhado ao Novo Viver sem Limite, dentro da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no SUS. A adesão por parte de estados e municípios será voluntária, conforme explicou Arthur Medeiros: "O gestor, o prefeito, o governador vai poder aderir ou não, vai poder aceitar ou não".

Em termos financeiros, a previsão é de um investimento de cerca de R$ 13 milhões até 2030 para a implementação do programa e a qualificação de profissionais que atuam nos Centros Especializados em Reabilitação em todo o Brasil. Somente para 2026, serão destinados aproximadamente R$ 2 milhões para o início das ações.

Importância do trabalho precoce e padronização internacional

Arthur Medeiros enfatizou a fundamental importância do trabalho precoce com crianças com deficiência ou TEA: "Se essas crianças não são estimuladas adequadamente, no futuro elas vão ter prejuízos. Prejuízos a nível de saúde, educacionais, sociais, emocionais. Então, o quanto antes a gente inicia o processo de estimulação dessa criança, antes essa criança acelera o desenvolvimento".

O programa, que já está presente em mais de 30 países, segue uma padronização internacional estabelecida pela OMS, garantindo que a aplicação no Brasil seja idêntica à de outros países, como a China. Essa padronização é crucial porque, como explicou Medeiros, "não é um profissional de saúde que vai aplicar com a criança. São seus pais, os cuidadores dessa criança".

O treinamento oferece estratégias práticas para os pais no cuidado cotidiano, no desenvolvimento infantil e na redução de comportamentos desafiadores, visando ampliar o acesso a intervenções precoces e de qualidade — mesmo antes do diagnóstico formal de TEA. Com essa iniciativa, o Brasil avança significativamente na garantia de direitos e no apoio às famílias que convivem com o autismo e outras deficiências.