O presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Leandro Safatle, afirmou que o acesso às canetas emagrecedoras é importante, mas a segurança do paciente deve ser prioridade. Em entrevista à Folha de S.Paulo, ele destacou as recentes medidas da agência para restringir a entrada de medicamentos sem registro no Brasil, especialmente vindos do Paraguai e produzidos por farmácias de manipulação.
Fiscalização intensificada
Safatle explicou que as ações são realizadas em conjunto com a Polícia Federal e têm identificado produtos falsificados e de baixa qualidade. “A Anvisa fez mais inspeções neste ano do que em todo o ano de 2025, uma série de ações articuladas, e tem encontrado muitos problemas”, disse. As fiscalizações miram um mercado paralelo ao de medicamentos registrados, como Ozempic (semaglutida, da Novo Nordisk), Mounjaro (tirzepatida, da Eli Lilly) e dois produtos da EMS com liraglutida.
Pressão política e redes sociais
As restrições da Anvisa ocorrem em meio à popularização do uso das canetas nas redes sociais, onde são frequentemente tratadas como soluções estéticas, e à pressão política para incluí-las no SUS. O órgão endureceu as regras para farmácias de manipulação, que muitas vezes produzem fora dos padrões sanitários e em larga escala, sem respeitar a exigência de formulação individualizada.
Novas exigências para farmácias
A Anvisa passará a exigir o Certificado de Boas Práticas de Fabricação (CBPF) dos fabricantes de insumos usados nas farmácias de manipulação. As novas regras serão votadas pelos cinco diretores da agência no fim de abril. Em 2026, a Anvisa realizou 26 inspeções em farmácias de manipulação e interditou mais de 1,3 milhão de unidades de emagrecedores.
Operação da Polícia Federal
As ações de fiscalização se intensificaram após a operação da Polícia Federal em novembro de 2025 contra farmácias de manipulação irregulares, com apreensão de carros, avião, embalagens e remédios. Em abril de 2026, novos mandados foram cumpridos em 12 estados. Cinco entidades médicas pediram a proibição total da venda das canetas nesses estabelecimentos.
Indústria defende revisão
O presidente executivo do Sindusfarma, Nelson Mussolini, afirmou que apreensões pontuais têm efeito limitado, pois os produtos das farmácias são feitos “muitas vezes sem total clareza quanto à procedência, às condições de fabricação ou ao cumprimento das boas práticas de armazenamento e transporte”. A Anvisa, porém, considera que a legislação permite a produção em farmácias de manipulação e está aperfeiçoando as regras para garantir a segurança.
Produtos do Paraguai proibidos
A Anvisa também proibiu o uso e a venda de dois emagrecedores do Paraguai, Gluconex e Tirzedral, que eram os únicos aprovados no país vizinho ainda sem restrição no Brasil. A venda de produtos sem registro é proibida, mas a importação para uso pessoal era permitida. Agora, essa opção foi barrada. Safatle mencionou que foram encontrados produtos importados mal transportados, “em roda de carro”, o que não configura consumo pessoal.
Acordo com Paraguai
Safatle assinou um acordo com a agência sanitária do Paraguai para apoiar fiscalizações no país vizinho, podendo incluir o envio de técnicos brasileiros para inspeções em laboratórios. Além disso, a Anvisa criou grupos de trabalho com conselhos federais de Medicina, Odontologia e Farmácia para promover o uso seguro das canetas, além de um grupo interno com servidores de várias áreas.
Preocupação com uso estético
As canetas são agonistas de GLP-1, hormônio que controla glicose e saciedade, indicadas para obesidade e diabetes. O uso desenfreado de versões sem registro ou para fins estéticos preocupa entidades médicas. Safatle destacou que, sem o registro da Anvisa, não há garantia de segurança, qualidade e eficácia do produto.
A Anvisa também deseja ampliar a oferta de medicamentos registrados e avalia 16 produtos com semaglutida, que perdeu patente no fim de março. Em agosto de 2025, a pedido do Ministério da Saúde, a agência priorizou a análise de produtos para diabetes e obesidade.



