A região de Campinas, no interior de São Paulo, enfrenta uma situação preocupante no setor educacional: em 2025, foram registrados 850 afastamentos de professores por licença médica, conforme dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pela EPTV, afiliada da TV Globo. Esses números destacam um cenário de adoecimento entre os docentes, com impactos significativos na rede estadual de ensino.
Dados detalhados dos afastamentos
Os municípios que integram a região de Piracicaba, parte da área de Campinas, somaram 396 afastamentos. A análise revela que mulheres de 50 a 59 anos, atuando como docentes efetivas na educação básica II, representam a maioria dos profissionais que precisaram se ausentar por questões de saúde física ou mental. Do total, 268 afastamentos foram de mulheres, enquanto os homens totalizaram 128.
Perfil dos professores afastados
Em termos de atuação, 332 professores eram da educação básica II (6º ao 9º ano), 45 do ensino fundamental e médio, e 9 da educação básica I (1º ao 5º ano). Quanto ao tipo de contrato, a distribuição foi a seguinte: 259 efetivos (categoria A), 115 estáveis (categoria F), e 22 temporários (categoria O). A maioria, 374 profissionais, recebeu licença temporária (código 001), enquanto 22 se afastaram por tempo indeterminado (código 257).
Distribuição por cidades
Entre as cidades da região de Piracicaba, Piracicaba lidera com 139 afastamentos, seguida por Limeira com 101, Santa Bárbara d'Oeste com 61, e outras localidades com números menores, como Nova Odessa (13) e Cosmópolis (12). Alguns municípios, como Águas de São Pedro, não registraram afastamentos.
Relatos e impactos na saúde mental
Em entrevistas anônimas, professoras compartilharam experiências angustiantes. Uma docente, afastada por transtorno misto de ansiedade e depressão após 20 anos de serviço, descreveu um ambiente de trabalho marcado por conflitos e falta de empatia. "Alunos contra professores, professores contra professores e professores contra gestores. Se você não se adequar àquilo, àquele perfil que a gestão daquela escola deseja, você está fora", relatou ela, destacando que o problema vai além da competência, envolvendo questões de afinidade e pressão psicológica.
Outra professora, que se afastou várias vezes em 2025 por problemas pulmonares, revelou o medo de avaliações negativas pela Secretaria da Educação, o que a levou a trabalhar doente. "Eu acabei trabalhando doente, com crise de asma. Tinha meses que eu tinha uma crise recorrente e então, eu não podia pegar licença, uma em cima da outra, porque acabava me prejudicando", contou ela, enfatizando a necessidade de um olhar mais humano para os profissionais.
Análise de especialistas
Ronaldo Alexandrino, especialista em psicologia e educação pela Unicamp, argumenta que os dados exigem uma resposta mais robusta do Poder Público. "Falar de adoecimento é, também, corresponsabilizar as políticas públicas e, por sua vez, o Estado, que desempenha seu trabalho através das secretarias estaduais e municipais de educação no modo como trata o docente", afirmou. Ele defende que o diálogo e a escuta ativa são essenciais para desenvolver políticas que abordem as causas do sofrimento docente.
Resposta da Secretaria de Educação
Em nota, a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo informou que monitora os afastamentos para planejar ações de prevenção e cuidado, com foco na saúde mental dos professores. A pasta comprometeu-se a fortalecer políticas de acolhimento e destacou a criação, em 2024, de um serviço de teleatendimento, que até janeiro de 2025 registrou 875 mil atendimentos em psicologia e 52 mil em psiquiatria. A Secretaria atribui os afastamentos a fatores como as transformações pós-pandemia, novas tecnologias e demandas sociais e pedagógicas crescentes.
Conclusão
Os 850 afastamentos de professores na região de Campinas em 2025 refletem uma crise de saúde ocupacional que vai além dos números, envolvendo questões de bem-estar mental e condições de trabalho. Com a maioria sendo mulheres em faixas etárias mais avançadas, o cenário exige ações concretas para garantir um ambiente educacional mais saudável e sustentável para todos os envolvidos.