Depressão pós-parto atinge 25% das mães no Brasil, revela Fiocruz; caso trágico em SP é investigado
Depressão pós-parto afeta 25% das mães; caso trágico em SP é investigado

Depressão pós-parto afeta uma em cada quatro mães no Brasil, aponta estudo da Fiocruz

O período pós-parto, conhecido como puerpério, que abrange de 40 a 60 dias após o nascimento do bebê, pode ser repleto de desafios intensos para as mulheres. As transformações físicas abruptas, a adaptação à maternidade e as mudanças na rotina e alimentação frequentemente desencadeiam problemas tanto físicos quanto emocionais. Um levantamento recente divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que, em todo o país, aproximadamente 25% das mães são diagnosticadas com depressão pós-parto, um número que chama a atenção para a gravidade do problema.

Caso trágico em Águas de Santa Bárbara (SP) é investigado pela Polícia Civil

Em Águas de Santa Bárbara, no interior de São Paulo, a Polícia Civil está investigando se Amanda Christina Batista Rodrigero, de 31 anos, presa na terça-feira (17), apresentava um quadro de depressão pós-parto. A mulher foi flagrada entrando em um trecho do Rio Pardo carregando sua filha recém-nascida, Melissa, de apenas 20 dias. A bebê foi encontrada morta na quinta-feira (19), às margens do rio, após um extenso trabalho de busca realizado pelo Corpo de Bombeiros.

O delegado Paulo Sérgio Garcia, responsável pelo caso, detalhou que, após a localização do corpo, o inquérito passou a apurar o ocorrido como infanticídio, crime previsto no artigo 123 do Código Penal, com pena de dois a seis anos de detenção. Este crime é caracterizado quando a mãe mata o filho durante o parto ou logo após, sob a influência do estado puerperal. Durante o interrogatório, Amanda relatou que ouviu uma "voz" ordenando que se matasse, decidindo levar a criança consigo. Ela afirmou ter tentado resgatar a filha, mas não conseguiu devido à força da correnteza do rio.

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O marido de Amanda, em seu depoimento, mencionou um histórico de suicídio na família dela, o que aumentou a preocupação após sua saída de casa na manhã do incidente. A mulher foi encontrada com vida em um trecho do Rio Pardo próximo à Ponte do Óleo, em Óleo (SP), a cerca de 14 quilômetros do local onde entrou na água, sendo resgatada por moradores e encaminhada ao pronto-socorro. Após audiência de custódia, sua prisão foi convertida para preventiva.

Diferenças entre baby blues e depressão pós-parto explicadas por especialistas

O diretor do curso de medicina da Universidade São Caetano do Sul (USCS) em Itapetininga (SP), Sérgio Makabe, esclarece que a queda hormonal abrupta após o parto pode desencadear transtornos ligados à oscilação de humor, como o baby blues e a depressão pós-parto. Ele explica que, logo após o parto, hormônios como progesterona, estrogênio e cortisol, que estavam elevados durante a gestação, caem drasticamente, causando alterações neuronais que podem levar a sentimentos de tristeza e insegurança.

Baby blues, também conhecido como tristeza do bebê, geralmente dura cerca de duas semanas após o parto e tende a amenizar e desaparecer naturalmente. No entanto, Sérgio Makabe ressalta que é imprescindível retornar ao consultório médico para avaliação, independentemente das alterações hormonais. Fatores sociais, como gravidez indesejada e falta de apoio familiar, podem fazer com que o baby blues evolua para depressão pós-parto em aproximadamente 20% das mulheres, especialmente se os sintomas persistirem por mais de 14 dias.

Depressão pós-parto é emocionalmente mais intensa, com sintomas que incluem baixa autoestima, problemas para dormir, fadiga intensa e, em casos mais graves, pensamentos suicidas ou homicidas. Sérgio Makabe classifica a condição como multifatorial, envolvendo determinantes biológicas, psicológicas e sociais, e destaca a importância do histórico prévio da paciente, pois mulheres com depressão antes da gravidez têm maior risco.

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Tratamento e prevenção são essenciais para combater o transtorno

Para casos mais graves, Sérgio Makabe recomenda a prescrição de antidepressivos que não passam pelo leite materno, além de encaminhamento para terapia e psiquiatria. Atividades físicas também podem auxiliar no tratamento. Ele enfatiza que a consulta médica pós-parto deve ir além de questões como amamentação e cicatrizes, incluindo apoio social e discussão sobre a dinâmica familiar para prevenir quadros depressivos.

A psicóloga Bruna Gonçalves, também de Itapetininga, acrescenta que a depressão pós-parto pode causar alucinações visuais e sonoras, evoluindo para episódios de psicose em casos avançados. Ela destaca que ter vivenciado gestações anteriores não torna a mulher imune ao transtorno, pois fatores pessoais e questões individuais da gestante desempenham um papel crucial.

O caso de Águas de Santa Bárbara serve como um alerta sombrio para a necessidade de maior atenção à saúde mental materna no Brasil. Com uma em cada quatro mães enfrentando depressão pós-parto, conforme os dados da Fiocruz, é fundamental promover conscientização, acesso a tratamentos adequados e suporte social para prevenir tragédias como essa.