Estudo revela 192 alimentos que causam alergias em adultos, além do 'big 8'
192 alimentos ligados a alergias em adultos, diz estudo

Um estudo inédito realizado na Holanda está mudando a forma como a medicina encara as alergias alimentares em adultos. A pesquisa, que analisou dados de mais de mil pacientes, identificou quase 200 alimentos diferentes associados a reações alérgicas, indo muito além do tradicional grupo conhecido como "big 8".

Metodologia e perfil dos pacientes

Os pesquisadores do Journal of Allergy and Clinical Immunology analisaram informações de 1.085 pacientes adultos atendidos em um ambulatório especializado entre os anos de 2018 e 2023. Para participar, os indivíduos precisaram relatar sintomas típicos de alergia alimentar, que surgiram até duas horas após a ingestão de um alimento suspeito.

Os dados foram coletados através de um questionário padronizado aplicado na primeira consulta. Os médicos registraram o alimento suspeito, o tipo e a gravidade dos sintomas, o tempo de início da reação e se foi necessário usar medicação de emergência. Sempre que possível, os relatos foram confirmados com exames específicos, como testes cutâneos ou de sangue.

Com base nisso, os casos foram classificados como "alergia alimentar provável" (quando havia sintomas e confirmação por exame) ou "alergia alimentar possível" (apenas com o relato dos sintomas). A gravidade das reações foi categorizada em uma escala que ia desde coceira leve até situações graves com dificuldade respiratória e queda de pressão.

Os resultados surpreendentes do cardápio alérgico

No total, os pacientes relataram sintomas compatíveis com alergia após consumir 192 alimentos distintos. No entanto, cerca de 80% desses relatos se concentraram em apenas 30 itens, revelando um padrão claro dominado por produtos de origem vegetal.

Quase 70% dos pacientes (68,8%) tiveram reações após comer frutas. Em seguida, apareceram as oleaginosas, como castanhas e nozes (63,0%), as leguminosas, como amendoim e soja (39,5%), e outros vegetais (34,0%). Entre as frutas, a maçã foi a que mais causou relatos, com 44,4% das menções entre os alérgicos a frutas.

"Cerca de um terço dos pacientes relatou sintomas de alergia a kiwi, avelã, noz ou amendoim; cerca de um quarto, à cereja; e um quinto, à amêndoa, pêssego ou pera", detalharam os autores do estudo.

Um dado curioso é que peixes e crustáceos, frequentemente vistos como os grandes vilões, apareceram com uma frequência relativamente baixa: apenas 6,8% dos pacientes relataram sintomas com peixes e 7,6% com crustáceos.

Gravidade das reações: um panorama diferente

Quando o foco é a intensidade das reações, o cenário muda. O grupo das sementes e caroços (como gergelim e pinhão), que representou 14,4% dos relatos, foi responsável pelos quadros mais sérios: quase 40% (39,8%) das reações a esses itens foram graves. Os peixes apareceram em segundo lugar, com 39,2% dos casos graves.

Contudo, ao observar o número total de pessoas afetadas, as reações graves foram mais comuns após o consumo de oleaginosas, leguminosas e frutas. Isso não significa necessariamente que esses alimentos sejam mais perigosos, mas sim que são mais consumidos na rotina alimentar, aumentando a probabilidade de exposição e reação.

Os pesquisadores também destacaram o fenômeno das reações cruzadas, especialmente no caso das frutas. Algumas proteínas presentes em frutas são semelhantes às encontradas em certos tipos de pólen. Com o aumento das alergias respiratórias e temporadas de pólen mais longas – efeitos associados às mudanças climáticas – o sistema imunológico pode ficar mais sensível, elevando o risco de reações alérgicas aos alimentos.

Limitações e a mensagem principal

Os próprios autores do estudo foram cautelosos ao apresentar os resultados. Eles destacaram que nem todos os alimentos analisados possuem testes diagnósticos disponíveis e que a pesquisa não incluiu testes de provocação oral, considerados o padrão-ouro para confirmação de alergias alimentares.

Portanto, a mensagem central não é que as pessoas devem sair cortando frutas, verduras ou outros alimentos nutritivos de suas dietas por conta própria. Um sinal clássico de uma alergia alimentar verdadeira é a repetição da reação sempre que o alimento é consumido. Sintomas esporádicos têm menor probabilidade de indicar uma alergia de fato.

Em resumo, o estudo holandês não estabelece relações diretas de causa e efeito, nem substitui a avaliação individual de um médico alergista ou nutricionista. Ainda assim, ele oferece um panorama valioso e abrangente sobre a vasta gama de alimentos que podem desencadear reações em adultos, especialmente aqueles fora do radar do "big 8". Para os cientistas, esses dados abrem caminho para pesquisas futuras, mais controladas e com métodos de confirmação diagnóstica mais robustos.