Estudo de Harvard revela: variar exercícios físicos reduz risco de morte em 19%
Que a atividade física faz bem à saúde e contribui para uma vida mais longa já é consenso na comunidade científica. No entanto, uma nova pesquisa da Universidade de Harvard trouxe uma descoberta importante: variar os tipos de exercício pode ser ainda mais benéfico do que focar em apenas uma modalidade, mesmo quando o volume total de atividade é o mesmo.
Três décadas de acompanhamento
O estudo, publicado na revista BMJ Medicine, acompanhou 111.467 homens e mulheres inicialmente livres de doenças crônicas graves por mais de três décadas. A cada dois anos, os participantes informavam quanto tempo dedicavam a diferentes atividades físicas, permitindo aos pesquisadores analisar o impacto específico de cada modalidade.
"É um achado bastante novo mostrar que, para um mesmo nível total de atividade física, praticar mais tipos de exercício pode oferecer benefícios adicionais para a longevidade", afirmou Yang Hu, pesquisador do Departamento de Nutrição de Harvard e autor principal do estudo.
O poder de sair do sedentarismo
Os resultados confirmaram o padrão já conhecido: quanto maior o volume total de atividade física, menor a mortalidade por todas as causas, doenças cardiovasculares, câncer e doenças respiratórias. Porém, o detalhe mais revelador foi o ritmo desse benefício.
O maior ganho ocorreu quando a pessoa deixou de ser sedentária. Sair do zero já reduziu significativamente o risco de mortalidade. A partir daí, continuar aumentando o tempo ou a intensidade do exercício trouxe vantagens adicionais, mas de forma mais gradual.
"Descobrimos que todas as atividades incluídas neste estudo apresentam um limite, o que significa que não há ganhos adicionais além de certa quantidade de exercício", explicou Hu. "Portanto, combinar diferentes atividades pode ser mais eficaz para obter benefícios à saúde, desde que o nível total de atividade seja mantido."
Reduções específicas por modalidade
Entre as modalidades analisadas, a maioria mostrou associação significativa com menor risco de morte. No grupo mais ativo em cada categoria, os resultados para mortalidade por todas as causas foram:
- Caminhada: redução de 17%
- Tênis, squash ou raquetebol: redução de 15%
- Remo ou calistenia: redução de 14%
- Corrida: redução de 13%
- Musculação: redução de 13%
- Subir escadas regularmente: redução de 10%
- Natação: redução de 7%
- Ciclismo: redução de 4%
Para causas específicas, algumas modalidades se destacaram ainda mais. Corrida, esportes de raquete e treinamento de força mostraram associações particularmente consistentes com menor mortalidade cardiovascular e respiratória.
A importância da variedade
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa foi analisar não apenas quanto as pessoas se exercitavam, mas quantos tipos diferentes de atividade elas praticavam. Os pesquisadores criaram um "contador de variedade" para observar se os participantes faziam apenas uma modalidade ou combinavam duas, três ou mais ao longo da rotina.
O resultado foi surpreendente: mesmo entre pessoas que praticavam a mesma quantidade total de atividade física, aquelas que variavam mais os exercícios tiveram um risco 19% menor de morrer por qualquer causa, em comparação com quem fazia sempre a mesma atividade.
Além disso, apresentaram uma redução de 13% a 14% no risco de morte por doenças cardíacas, respiratórias, câncer e outras causas.
Por que a variedade funciona?
A explicação provável é que cada tipo de exercício trabalha o corpo de forma diferente. Caminhar ou correr fortalecem o sistema cardiovascular, a musculação preserva massa muscular e força, e esportes de raquete exigem agilidade e coordenação. Quando esses estímulos se somam, os efeitos podem se complementar.
"Isso significa que, embora manter um alto nível de atividade física total continue sendo o mais importante, combinar diferentes modalidades — que trazem benefícios complementares à saúde — pode ser ainda mais eficaz para prevenir mortes prematuras", destacou Hu.
Limitações e considerações
É importante ressaltar que o estudo é observacional. Os pesquisadores acompanharam as pessoas ao longo do tempo e observaram associações, mas não fizeram uma intervenção direta. Os dados mostram uma relação entre exercício e menor risco de morte, mas não permitem afirmar com certeza absoluta que foi aquele exercício, isoladamente, o responsável pelo resultado.
Outro ponto é que as informações sobre atividade física foram fornecidas pelos próprios participantes, por meio de questionários. Embora sejam instrumentos validados, sempre existe a possibilidade de erro de memória ou de superestimar o quanto se pratica.
Além disso, a maioria dos participantes era formada por profissionais de saúde, predominantemente brancos. Isso pode limitar a aplicação dos resultados para populações com perfis sociais, culturais ou econômicos diferentes.
Recomendações da OMS
Os benefícios do volume total de atividade física tenderam a se estabilizar a partir de cerca de 20 MET-horas por semana – o que equivale, aproximadamente, a 300 minutos de atividade moderada. Este valor está dentro da faixa recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que orienta entre 150 e 300 minutos semanais de atividade moderada para adultos.
Se a pergunta era "qual é o melhor exercício para viver mais?", o estudo sugere uma resposta menos simplista. Caminhar já faz diferença. Correr também. Fortalecer os músculos, subir escadas, praticar esportes — tudo isso apareceu associado a benefícios. Mas o conjunto parece ser mais importante do que escolher apenas uma modalidade.



