Em clínicas de estética, academias e fóruns na internet, a palavra "testosterona" tornou-se sinônimo de solução para diversos problemas masculinos. Cansaço, queda no desempenho sexual e dificuldade para ganhar massa muscular são frequentemente associados à falta desse hormônio. No entanto, a testosterona não é um suplemento alimentar, e tratá-la como tal pode acarretar sérios prejuízos à saúde.
Crescimento alarmante da reposição hormonal
O uso de reposição hormonal à base de testosterona cresceu de forma expressiva no Brasil nos últimos anos. Influenciadores digitais e clínicas que prometem "otimização hormonal" impulsionam esse fenômeno, preocupando médicos que observam uma onda de automedicação disfarçada de tratamento clínico. Segundo o Dr. Flávio Machado, diretor médico e fundador do Instituto Homem, o principal problema é a banalização do tratamento. A reposição de testosterona foi desenvolvida para casos específicos de hipogonadismo, condição em que o organismo não produz hormônio suficiente, e exige avaliação rigorosa antes de qualquer prescrição.
Riscos do uso sem indicação médica
O médico ressalta que muitos pacientes chegam ao consultório já utilizando o hormônio por conta própria, após indicação de conhecidos ou conteúdos vistos nas redes sociais, sem nenhum exame que justifique o uso. Os riscos são extensos e podem impactar órgãos vitais. Entre os principais estão a supressão da produção natural do hormônio – que pode levar à infertilidade –, aumento do risco cardiovascular, alterações no colesterol, apneia do sono, crescimento da próstata, instabilidade de humor e dependência do uso contínuo. Um dos efeitos menos divulgados é o espessamento do sangue, causado pelo aumento do hematócrito, que eleva o risco de trombose e acidente vascular cerebral (AVC).
Dependência química e física
A dependência é um ponto que merece atenção especial. Ao receber testosterona externamente, o corpo interpreta que não precisa mais produzi-la, reduzindo ou cessando sua fabricação natural. Para reverter esse processo, pode ser necessário tratamento longo e nem sempre eficaz. Cansaço persistente, baixa libido, dificuldade de concentração e perda de massa muscular são os sintomas que mais levam homens a buscar a reposição. Contudo, esses sinais são inespecíficos e raramente têm a testosterona como única causa.
Investigação clínica é fundamental
"O erro mais comum é tratar o sintoma sem investigar a causa. Nem todo cansaço é falta de testosterona. Muitas vezes, o problema está no estilo de vida, no sono, na alimentação ou em outras condições clínicas não diagnosticadas", explica o Dr. Flávio Machado. Estresse crônico, sedentarismo, má alimentação, apneia do sono não tratada e até ansiedade e depressão podem produzir um quadro clínico idêntico ao de queda hormonal. Sem investigação adequada, tratar com testosterona é, na melhor das hipóteses, ineficaz, e, na pior, prejudicial.
Desinformação digital e clínicas irregulares
Médicos e pesquisadores apontam o ambiente digital como um dos principais vetores da desinformação hormonal. Perfis voltados à saúde masculina e "biohacking" proliferam com conteúdos que romantizam a reposição como caminho para uma versão superior do próprio corpo, sem mencionar os riscos. Clínicas que oferecem "protocolos de otimização hormonal" com poucos exames e consultas rápidas também ganham espaço nesse mercado, atraindo homens que buscam resultados rápidos. "A saúde hormonal é delicada. Não existe atalho seguro. Qualquer intervenção precisa ser individualizada e baseada em evidência científica", reforça o médico.
Critérios para reposição segura
A reposição hormonal só deve ser considerada após um processo diagnóstico completo, que inclui histórico clínico detalhado, exame físico e ao menos dois exames laboratoriais realizados pela manhã, momento em que os níveis de testosterona estão no pico. Mesmo quando indicada, a terapia exige retornos periódicos para ajuste de doses e monitoramento cardiovascular, prostático e hematológico. O alerta é claro: antes de iniciar qualquer reposição, o caminho é buscar um médico especialista. O que parece uma solução simples pode, na prática, tornar-se um problema de longo prazo, inclusive para quem ainda deseja ter filhos.



