Exercício físico supera medicamentos no tratamento da depressão e ansiedade, revela estudo
Exercício supera remédios contra depressão e ansiedade, diz estudo

Atividade física se revela tão eficaz quanto medicamentos no combate à depressão e ansiedade

Uma das maiores análises científicas já realizadas sobre o tema revelou que praticar exercício físico pode ser tão eficaz quanto remédios e psicoterapia no tratamento da depressão e da ansiedade. O estudo abrangente, que reuniu dados de quase 80 mil pessoas, demonstra que a atividade física reduz sintomas em todas as faixas etárias e, em determinados casos, apresenta resultados superiores aos tratamentos tradicionais.

Metodologia robusta confirma resultados impressionantes

A pesquisa, classificada como uma "revisão de revisões" (meta-meta-análise), foi publicada por cientistas da Austrália após extensa coleta de dados. Os autores reuniram e avaliaram metanálises e revisões sistemáticas já existentes para medir, com precisão máxima, o impacto do exercício na saúde mental. Ao todo, foram incluídos 63 estudos que continham 81 metanálises, abrangendo impressionantes 1.079 estudos individuais e 79.551 participantes.

A busca foi realizada em sete grandes bases de dados científicas, incluindo SCOPUS, PsycINFO e PubMed. Para garantir que o efeito observado viesse exclusivamente do exercício, os pesquisadores excluíram pessoas com doenças físicas crônicas pré-existentes, como câncer e doenças cardíacas.

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Por que o exercício físico funciona como tratamento eficaz?

O exercício funciona como tratamento eficaz para a saúde mental porque atua simultaneamente em frentes biológicas, psicológicas e sociais. Segundo as análises, a atividade física não é apenas um "hábito saudável", mas uma intervenção que altera profundamente a química e a estrutura do cérebro, além de fortalecer o bem-estar emocional por meio da interação com outras pessoas.

"A depressão tende a comprometer o planejamento, a iniciativa e a organização. Quando o exercício tem horário fixo, estrutura e repetição, ele funciona quase como um guia. A pessoa não precisa decidir o tempo todo. A estrutura já está dada", afirma Helder Picarelli, médico neurocirurgião e neurologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).

Do ponto de vista neurobiológico, medicamentos e exercício atuam sobre vias semelhantes, mas por caminhos diferentes. O humor, a motivação e o prazer são mediados por vias finais comuns — neurotransmissores, atividade elétrica e regulação hormonal. O que ocorre nas diferentes intervenções é que essas vias são estimuladas por mecanismos distintos para chegar ao mesmo resultado.

Qual exercício funciona melhor em cada caso?

Os pesquisadores identificaram que não existe fórmula única: o tipo e a intensidade do exercício impactam as condições de forma diferente.

  • Para casos de depressão: Os melhores resultados foram observados em exercícios aeróbicos (como corrida ou caminhada), realizados em grupo e com supervisão profissional. O componente social e o senso de pertencimento foram apontados como cruciais para potencializar o efeito antidepressivo.
  • Para casos de ansiedade: Programas de curta duração (até oito semanas) e de baixa intensidade mostraram-se mais eficazes para reduzir os sintomas de forma mais rápida.

"O estudo não prova o porquê dos exercícios aeróbicos terem maior impacto na depressão; ele aponta uma associação, não uma causalidade. Mas há hipóteses plausíveis: efeito mais consistente no sono, na energia e no humor, facilidade de adesão a atividades como caminhada, corrida ou ciclismo e sensação mais rápida de melhora", explica Diego Munhoz, médico ortopedista formado pela USP.

Quem mais se beneficia com a atividade física?

Embora o exercício ajude em todas as faixas etárias, dois grupos apresentaram melhoras mais expressivas:

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  1. Jovens adultos (18 a 30 anos): Fase marcada pelo início de muitos transtornos mentais.
  2. Mulheres no pós-parto: Grupo em que o exercício foi classificado como estratégia de "baixo risco e alto benefício" para a saúde mental materna.

Exercícios físicos e o vínculo social

A eficácia do exercício não é apenas psicológica. Biologicamente, ele estimula a produção de neurotrofinas (proteínas que ajudam no crescimento e na sobrevivência dos neurônios) e protege o cérebro contra danos neurotóxicos. No campo social, o exercício em grupo aumenta a motivação e a sensação de apoio, o que ajuda o paciente a manter o tratamento por mais tempo.

De acordo com Helder Picarelli, quando a pessoa está isolada, sistemas cerebrais ligados à dor emocional ficam mais reativos. "O exercício em grupo acrescenta pertencimento, ativa circuitos de recompensa e reduz a resposta ao estresse. Isso diminui a ruminação e a autocrítica. Não é só o músculo que está sendo treinado é o cérebro social", destaca o especialista.

Se é tão eficaz, por que ainda não é primeira opção?

Os autores defendem que o próximo passo é transformar as evidências em recomendações práticas, para que médicos possam prescrever exercício com a mesma segurança com que indicam medicamentos ou psicoterapia, ampliando o arsenal terapêutico no enfrentamento da depressão e da ansiedade.

"Não é uma competição. Muitas vezes, a melhor estratégia é combinar", afirma Picarelli.

Apesar das evidências esmagadoras, o estudo aponta que a recomendação de exercícios nos consultórios ainda é limitada. Os pesquisadores alegam que profissionais de saúde devem prescrever atividades físicas com a mesma confiança que prescrevem fármacos, criando guias práticos e personalizados para cada perfil de paciente.

"Exercício é ferramenta terapêutica poderosa, mas não pode virar algo rígido ou culpabilizante. Precisa ser adaptado à realidade de cada pessoa e, quando bem orientado, passa a integrar o cuidado", pontua o médico.