Prefeitura de Limeira aponta falhas graves em atendimento que resultou na morte de criança
A Prefeitura de Limeira, no interior de São Paulo, divulgou nesta sexta-feira (23) um relatório contundente que identifica uma série de falhas no atendimento de saúde prestado a Théo Benício Vantini de Azevedo, um menino de apenas 2 anos que faleceu após passar pelo Hospital Hapvida da cidade. O documento oficial, produzido pela secretaria municipal de Saúde, expõe deficiências consideradas graves no cuidado médico oferecido à criança.
Relatório detalha irregularidades no prontuário e conduta médica
Segundo as investigações conduzidas pela administração municipal, o relatório final apontou que os registros médicos do Hospital Hapvida apresentam inconsistências significativas. Entre as principais falhas identificadas estão informações no prontuário que não condizem com os sinais clínicos apresentados pela criança na ocasião dos atendimentos.
O documento destaca ainda a ausência completa de registros de reavaliações médicas antes da concessão da alta hospitalar, um procedimento considerado essencial para a segurança do paciente. Outro ponto crítico foi a falta de solicitação de exames básicos, como radiografia, que poderiam ter auxiliado no diagnóstico precoce da gravidade da infecção que acometia o pequeno Théo.
Falta de encaminhamento e sinais de gravidade ignorados
O relatório da prefeitura enfatiza que, apesar da piora clínica relatada pela família da criança, não houve qualquer encaminhamento para internação hospitalar. Além disso, os registros não apresentam nenhuma suspeita de infecção generalizada, condição que posteriormente foi confirmada como causa da morte.
Dados alarmantes chamam a atenção no documento: a criança apresentava batimentos cardíacos extremamente elevados para sua faixa etária, com registros de até 181 batimentos por minuto (bpm), reduzindo para 154 bpm após intervenção. "Ambos os valores caracterizam taquicardia importante para a faixa etária, configurando sinal fisiológico objetivo de gravidade", afirma trecho do relatório.
Investigação abrangente e autuação do hospital
A investigação municipal foi realizada a partir da análise minuciosa de prontuários médicos, exames laboratoriais, laudos oficiais e relatórios de diversas áreas, incluindo Vigilância Sanitária, Vigilância Epidemiológica, Serviço de Verificação de Óbito (SVO) e Auditoria Municipal em Saúde.
Como resultado das apurações, a Vigilância Sanitária de Limeira autuou o Hospital Hapvida por diversas irregularidades. As infrações incluem:
- Não comunicação de um caso positivo de Influenza A
- Demora ou ausência na entrega de documentos solicitados para a investigação
- Falta de registros para comprovar o cumprimento de protocolos de segurança
- Atuação de profissional sem especialização em pediatria no caso
Segundo a Secretaria de Saúde, essas falhas dificultaram o acompanhamento adequado do atendimento prestado e ferem normas sanitárias e éticas que regulam os serviços de saúde.
Contexto do caso e posicionamento das partes
No dia 30 de setembro de 2025, o menino Théo chegou sem vida ao Pronto Atendimento Municipal do bairro Aeroporto em Limeira. Curiosamente, no mesmo dia, a criança havia recebido alta médica duas vezes do Hospital Hapvida da cidade.
O exame realizado pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) de Limeira apontou que a causa da morte foi uma infecção bacteriana grave, com comprometimento dos pulmões e infecção generalizada.
Em nota oficial, o Hospital Hapvida de Limeira manifestou "profunda solidariedade à família do paciente" e reafirmou seu compromisso com o cuidado, a responsabilidade e a ética na assistência prestada. A instituição defendeu que o paciente foi atendido conforme o quadro clínico apresentado nas duas passagens pelo pronto-socorro, tendo recebido avaliação médica, exames e medicação de acordo com os protocolos clínicos estabelecidos pelo Ministério da Saúde para pacientes pediátricos.
O hospital afirmou ainda que foi oficialmente notificado pelos órgãos competentes e que prestará todos os esclarecimentos necessários dentro dos prazos estabelecidos, colocando-se à disposição das autoridades para colaborar integralmente com as apurações.
A reportagem tentou contato com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), o Conselho Regional de Medicina (Cremesp) e a Câmara Municipal para saber se receberam a denúncia e se investigarão o caso, mas não obteve retorno até a última atualização. A Secretaria de Saúde de Limeira informou que não pode divulgar o relatório na íntegra.