Síndrome de Couvade: quase metade dos parceiros vivencia sintomas de gravidez
Síndrome de Couvade: parceiros têm sintomas de gravidez

Síndrome de Couvade: quando os parceiros vivenciam sintomas de gravidez

Náuseas repentinas, fadiga intensa, adormecimento dos membros, pele suave nos braços e no peito, além de uma sensação geral de desconforto e alterações de humor. Muitas mulheres que passaram pela experiência da gravidez reconhecem facilmente esses sintomas. O que poucos sabem é que essas mesmas manifestações podem acometer os futuros pais e parceiros que não estão biologicamente grávidos, durante o período da gestação. Essa condição intrigante é conhecida como síndrome de Couvade.

Uma gravidez empática e pouco compreendida

A ginecologista e obstetra Catherine Caponero, da Clínica Cleveland em Ohio, nos Estados Unidos, define a síndrome como "gravidez empática". "Basicamente, ela ocorre quando um parceiro que não está grávido vivencia sintomas de gravidez, embora não esteja biologicamente esperando um bebê", explica a especialista, que já observou diversos casos em sua prática clínica.

Pesquisas recentes indicam que essa síndrome é muito mais comum do que se imaginava anteriormente. Estudos realizados em diferentes países revelam números surpreendentes: nos Estados Unidos, até 52% dos futuros pais relatam sintomas; na Jordânia, esse índice chega a 59%; na Tailândia, 61%; enquanto na Polônia e China, aproximadamente sete em cada dez homens afirmam ter vivenciado manifestações da síndrome durante a gravidez da parceira.

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Uma condição sem classificação oficial

Apesar de sua prevalência significativa, a síndrome de Couvade não é oficialmente reconhecida como transtorno médico. Não consta na Classificação Internacional de Doenças (CID) nem no Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais dos Estados Unidos, dois instrumentos fundamentais utilizados por profissionais de saúde em todo o mundo.

O professor emérito de psicologia Ronald Levant, da Universidade de Akron em Ohio, ressalta que poucos livros de referência médica fazem menção à condição. "Acho que aprendi uma sentença sobre ela na faculdade de Medicina", confessa a dra. Caponero. "Mesmo nos nossos recursos como clínicos, não há muitas informações."

Origens históricas e antropológicas

A palavra "Couvade" deriva do verbo francês couver, que significa "chocar". O termo foi popularizado em 1865 pelo antropólogo inglês Edward Burnett Tylor, que o utilizou inicialmente de forma depreciativa para descrever rituais observados entre camponeses do País Basco, na Espanha, onde homens se deitavam na cama com seus bebês recém-nascidos.

No entanto, práticas semelhantes remontam ao ano 50 a.C., quando futuros pais na Córsega, Chipre e Península Ibérica imitavam dores do parto ou aspectos do nascimento, às vezes vestindo as roupas de suas parceiras. Antropólogos documentaram rituais similares em diversas culturas ao redor do mundo, das Índias Ocidentais à América do Sul e leste asiático.

Múltiplas facetas de uma experiência complexa

Os especialistas contemporâneos concordam que a síndrome de Couvade é multifatorial, envolvendo componentes biológicos, psicológicos e sociais. O psicólogo Daniel Singley, diretor do Centro de Excelência Masculina em San Diego, explica: "Seu mecanismo não é bem conhecido. Talvez seja uma forma de tentar sublimar e lidar com questões emocionais, talvez exista um fundo neurobiológico."

Para muitos futuros pais, os sintomas podem representar uma forma subconsciente de empatia com a parceira grávida, refletindo o profundo envolvimento emocional com a experiência da gestação. "Ter um bebê é uma das conquistas mais significativas do desenvolvimento na vida adulta", observa o psicólogo clínico Kevin Gruenberg, fundador da organização Love, Dad na Califórnia. "Às vezes, pode parecer muito estressante e insuportável."

Bases biológicas e alterações hormonais

Evidências científicas sugerem que a síndrome pode ter fundamentos biológicos. Em pesquisas extensas realizadas pelo psicólogo Robin Edelstein, da Universidade de Michigan, observou-se que homens que aguardam a chegada do primeiro filho apresentam declínios significativos nos níveis de testosterona e estradiol.

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"A redução da testosterona, teoricamente, orienta os homens a cuidar do bebê e a investir na família, em vez de buscar novas parceiras ou aumentar sua agressividade", explica Edelstein. "E os níveis mais baixos de estradiol podem facilitar a prestação de cuidados."

Estudos neurológicos complementam essas descobertas, demonstrando que o cérebro dos pais também se altera após o nascimento de um filho. Uma pesquisa de 2024 revelou que o volume de massa cinzenta diminui nos pais após o parto, de forma similar ao que ocorre com as mães, em um processo de adaptação cerebral que facilita a interpretação dos sinais do bebê e o estabelecimento de laços afetivos.

Desafios sociais e expectativas de gênero

Para muitos futuros pais, aceitar esses ajustes físicos e emocionais pode ser particularmente desafiador devido às expectativas sociais sobre o comportamento masculino. "Eles podem pensar: 'eu sou homem, não posso ficar deprimido — não, isso é fraqueza. Sou pai, preciso estar impecável e prover minha família'", observa Singley.

O especialista defende uma abordagem mais compreensiva: "Precisamos deixá-los dizer 'posso ter enxaqueca, posso ter tensão muscular, posso ter problemas gastrointestinais. Posso sentir que existe esse peso sobre mim.'"

O antropólogo médico Richard Powis, da Universidade do Sul da Flórida, oferece uma perspectiva final reconfortante: "Quando chamamos de síndrome, nós a transformamos em patologia. Mas não há nada de errado com ela, nem particularmente único. É apenas empatia humana. Enfim, estamos falando de como as pessoas cuidam umas das outras e o que acontece quando elas fazem isso."