Grupos de Mães: Busca por Apoio Pode Virar Cenário de Julgamento e Exclusão
A maternidade é frequentemente retratada como um período de alegria e conexão, mas para muitas mulheres, a realidade pós-parto pode ser marcada por um profundo isolamento social. Na tentativa de encontrar apoio e companhia, um número crescente de mães recorre a grupos de mães, tanto presenciais quanto online. No entanto, o que deveria ser um espaço seguro de troca e solidariedade pode se transformar em um ambiente tóxico, repleto de julgamentos, competição e exclusão.
Experiências Pessoais Revelam Dinâmicas Complexas
Martina, uma mulher na casa dos 30 anos residente no País de Gales, decidiu ingressar em um curso de sinais para bebês com a expectativa dupla de ensinar seu filho a se comunicar e conhecer outras mães da sua vizinhança. Após apenas três sessões, porém, ela pegou seu recém-nascido e foi embora, cansada de ser constantemente julgada. As outras mães ridicularizavam suas decisões, como a alimentação por mamadeira e a escolha de ter o bebê por cesariana eletiva, transmitindo a impressão de que a consideravam uma mãe preguiçosa.
"Parecia que não importava o quanto eu tentasse", relata Martina. "Aquelas mulheres simplesmente nunca iriam me receber bem." Ela descreve a atmosfera do grupo como competitiva, semelhante à dinâmica entre adolescentes na escola, onde as participantes não demonstravam interesse genuíno em conhecê-la mais profundamente.
O Fenômeno das "Mães Malvadas" e Seus Impactos
A psicóloga clínica Noëlle Santorelli, que estuda o que chama de "mães malvadas" ("mean girl moms"), explica que a maternidade representa uma das mudanças de identidade mais profundas que uma mulher pode vivenciar. Esse processo pode despertar inseguranças, comparações e medos de exclusão de maneiras quase primitivas.
Os conflitos nesses grupos, segundo Santorelli, muitas vezes são sutis, envolvendo exclusão, fofocas e comentários passivo-agressivos. Muitas mães não compreendem claramente por que estão sendo excluídas, o que pode gerar sentimentos intensos de vergonha, confusão e culpa, agravando quadros de depressão pós-parto ou isolamento social.
Casos de Exclusão e Bullying em Diferentes Contextos
Rachel, residente no estado americano da Virgínia, buscou um grupo de mães após perceber que os convites sociais diminuíram drasticamente após o nascimento do seu primeiro filho. Inicialmente, o grupo oferecia apoio, com crianças brincando juntas e celebrações compartilhadas. Contudo, com o tempo, pequenos mal-entendidos se acumularam, e Rachel testemunhou e, posteriormente, vivenciou a exclusão.
"Sempre havia uma pessoa de fora", ela recorda. Quando tentou abordar a questão de deixar de receber convites, a líder do grupo a encarou fixamente e disse: "Você arruinou a minha noite." Rachel foi excluída em seguida, experiência que descreve como profundamente perturbadora, a ponto de acordar no meio da noite revivendo cada palavra e ação.
Kelly, em Londres, enfrentou uma situação ainda mais explícita. Após ingressar em um grupo onde sentia diferenças de valores e situações financeiras, ela relata: "Basicamente, sofri bullying e fui expulsa do grupo por uma mulher muito dominante." Acredita que sua habilidade de fazer as outras rirem possa ter despertado inseguranças na líder, levando à sua expulsão.
Reflexão e Autocrítica das Próprias Participantes
Interessantemente, ao refletirem sobre suas experiências, algumas mulheres reconhecem ter contribuído para dinâmicas tóxicas. Rachel lamenta ter participado de fofocas e zombarias contra uma mãe que sempre se atrasava para aulas de pilates, influenciada por uma "mentalidade de rebanho".
"Por que éramos tão cruéis com ela?", questiona-se hoje. "É muito idiota. Mas quando é algo divertido, com fofocas, e você está no centro do grupo, você participa abertamente e não se sente mal. É claro que hoje me sinto horrível."
Martina também admite a ironia de, após ser julgada, ter se pegado julgando outros pais, principalmente aqueles que gritavam com seus filhos. Essa consciência a deixa apreensiva em buscar novos grupos, não apenas pelo medo de críticas, mas também pela preocupação com o comportamento que seu filho poderá observar.
Estratégias e Dilemas Enfrentados pelas Mães
Diante dessas situações, as mães se veem em um dilema complexo. Santorelli frequentemente recebe questionamentos sobre se devem esperar uma exclusão gradual ou confrontar diretamente o grupo, o que pode colocar em risco amizades entre as crianças. Ela aconselha cautela, sugerindo que, em muitos casos, uma retração gradual pode oferecer mais autoproteção, especialmente em relacionamentos inevitáveis, como na escola ou na vizinhança.
Por outro lado, Michelle Elman, autora do livro sobre rompimento de amizades "Bad Friend", defende uma abordagem mais direta. "Se você não levantar o assunto, só existe um caminho: o fim da amizade", argumenta. "Se você abordar a questão, irá oferecer às pessoas a oportunidade de mudar."
A Busca por Conexões Autênticas e Sem Julgamentos
Apesar das experiências negativas, muitas mães reconhecem o valor do apoio mútuo, especialmente para combater o isolamento social ou a depressão pós-parto. Kelly, após se afastar dos grupos formais, encontrou uma amizade genuína e sem julgamentos com outra mãe durante aulas sensoriais para bebês. "Somos muito próximas e nos ajudamos", compartilha. "Acho que nós duas temos um posicionamento muito similar sobre a criação de filhos, sem julgamentos, e tem sido muito bom."
Martina resume o paradoxo enfrentado por muitas: "Não há solução perfeita. Quando você tem muitas amigas que não são mães, parece que elas não conseguem compreender como pode ser difícil. E se você tentar encontrar mães que realmente compreendem, é ainda pior. Elas irão julgar você." Todos os nomes citados nesta reportagem são fictícios, mas as histórias refletem realidades comuns e desafios significativos na jornada materna contemporânea.