Santos inicia ciclo de debates Santos 500+ com foco no envelhecimento populacional
Santos deu início na quarta-feira (28) ao ciclo de debates do projeto Agenda Santos 500+, uma iniciativa que propõe reflexões profundas sobre os desafios e caminhos da cidade rumo à celebração dos seus 500 anos, que ocorrerá em 2046. O primeiro encontro, realizado no auditório do Grupo Tribuna, teve como tema central a Demografia e reuniu especialistas de diversas áreas para analisar as transformações populacionais que moldam o futuro do município.
Cidade mais envelhecida do Brasil
Durante o evento, um dado marcante foi apresentado pelo sociólogo e demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, baseado em informações do Censo 2022 do IBGE: Santos é hoje a cidade mais envelhecida do País entre os municípios com mais de 100 mil habitantes. O município possui um Índice de Envelhecimento de 175,7, um indicador que compara a população idosa (acima de 60 anos) com a população jovem (até 14 anos).
"O Brasil vive uma inversão rápida. Em poucas décadas, teremos mais idosos do que jovens. Em Santos, essa realidade já chegou antes", afirmou Alves, destacando que este fenômeno exige planejamento estratégico, mas também abre novas possibilidades sociais e econômicas para a comunidade.
Transformação no perfil etário da população
Dados organizados pela Fundação Seade, a pedido de A Tribuna, mostraram como o perfil etário santista mudou drasticamente nas últimas décadas. Em 1980, cerca de 26% da população tinha até 15 anos. Atualmente, esse número caiu para pouco mais de 14%. Na direção oposta, o grupo acima de 60 anos passou de 9% para mais de 26%.
As projeções indicam que essa tendência de envelhecimento continuará avançando até 2040, reforçando a necessidade urgente de políticas públicas voltadas ao envelhecimento ativo e à reorganização dos serviços urbanos para atender às demandas desta nova realidade demográfica.
Experiência como ativo social e econômico
Para os participantes do painel, o aumento da longevidade não pode ser visto apenas como um problema. Alves ressaltou que o envelhecimento pode representar uma oportunidade valiosa de reorganização social, desde que acompanhado de inclusão e valorização da experiência acumulada.
"Ainda existe a ideia de que o idoso é sinônimo de incapacidade. Mas essa população pode contribuir muito com trabalho, conhecimento e participação comunitária", defendeu o especialista.
O engenheiro Alexandre Euzébio, diretor de Ensino e Pesquisa da Fundação Cenep, reforçou a importância do convívio entre gerações, especialmente no mercado de trabalho. "Estamos desperdiçando uma reserva enorme de conhecimento técnico. A intergeracionalidade precisa ser um eixo estratégico para o futuro", disse durante sua intervenção.
Espaços urbanos mais inclusivos e acessíveis
A urbanista Gabriela Vasconcelos, coordenadora de projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro/Insper, destacou que o envelhecimento da população exige mudanças significativas no desenho urbano. "Os espaços públicos precisam voltar a ser locais de convivência segura. Isso é fundamental para combater o isolamento e o etarismo", afirmou, defendendo uma cidade mais acessível e atrativa para todas as idades.
Saúde além da doença: bem-estar e qualidade de vida
O médico Chao Lung Wen, professor da Faculdade de Medicina da USP e referência nacional em telemedicina, lembrou que o debate sobre longevidade vai além da simples ampliação de leitos ou medicamentos. "Envelhecer não é apenas lidar com doenças. É falar de bem-estar, qualidade de vida e cuidado contínuo", explicou, citando a tecnologia como ferramenta importante para acompanhamento da população idosa.
O secretário municipal de Saúde, Fábio Lopez, apresentou ações já em andamento, como campanhas de vacinação e fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família, mas alertou para o alto índice de faltas em consultas especializadas, um desafio que precisa ser enfrentado.
Planejamento estratégico para os próximos 20 anos
O prefeito Rogério Santos abriu o encontro destacando que pensar os 500 anos da cidade passa necessariamente pela compreensão do cenário demográfico atual. "Santos sempre teve um histórico inovador. Planejar o futuro é entender quem somos hoje e como vamos envelhecer como cidade", afirmou.
O secretário de Governo, Fábio Ferraz, também avaliou o debate como essencial para integrar desenvolvimento social e econômico. "Uma população com mais experiência precisa estar inserida de forma ativa, participando da construção do futuro", disse durante sua participação.
Próximos encontros do ciclo Santos 500+
O ciclo Santos 500+ contará com seis encontros temáticos ao longo do ano, discutindo questões estratégicas para o município nas próximas duas décadas. O próximo debate está previsto para fevereiro e será dedicado às mudanças climáticas e seus impactos no contexto local e regional, continuando a preparação da cidade para seu quinto centenário.