Vírus Nipah: entenda o patógeno letal que preocupa a Ásia e os riscos de pandemia global
Casos confirmados na Índia acenderam um alerta global sobre o vírus Nipah, um patógeno altamente letal transmitido por morcegos que pode causar graves problemas neurológicos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) mantém o vírus em sua lista de vigilância prioritária, enquanto países asiáticos ampliam medidas de segurança.
Origem e características do vírus Nipah
O virologista Paulo Eduardo Brandão, professor e pesquisador da USP, explica que "o Nipah é um primo distante dos vírus do sarampo, da raiva e do vírus da cinomose que infecta os cães". Identificado pela primeira vez entre 1998 e 1999 em um surto na Malásia, o vírus recebeu o nome da localidade onde foi descoberto: Kampung Sungai Nipah, a Vila do Rio Nipah.
O micro-organismo tem como principal reservatório natural os morcegos frugívoros do gênero Pteropus, mas também pode infectar porcos e, mais raramente, seres humanos. Sua letalidade é alarmante: estima-se que de cada dez pessoas infectadas, entre quatro e sete podem morrer.
Sintomas e manifestações clínicas
A infectologista e patologista Carolina Lázari, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, detalha que o Nipah é um vírus com forte atração pelo sistema nervoso central. "No início, a infecção apresenta febre, dor de cabeça, tontura e vômitos, mas em dias pode evoluir para uma encefalite aguda grave", descreve.
Os sintomas neurológicos podem incluir:
- Rebaixamento do nível de consciência
- Convulsões
- Déficits cognitivos persistentes
- Alterações psiquiátricas
Lázari alerta para uma característica particularmente preocupante: "Ele tem a capacidade de reaparecer em indivíduos que tiveram encefalite meses ou até anos depois da infecção inicial". Em alguns casos menos frequentes, a infecção também pode desencadear problemas respiratórios graves.
Formas de transmissão
Os morcegos do gênero Pteropus eliminam o vírus Nipah em suas fezes, urina e saliva. A transmissão para humanos ocorre principalmente através de:
- Contato direto com animais infectados
- Consumo de alimentos contaminados por morcegos
- Contato com secreções de pessoas infectadas
Lázari destaca um fator cultural importante: "Em Bangladesh e na Índia, surtos estão ligados a um hábito cultural específico: o consumo da seiva fresca da tamareira. Durante a coleta noturna, a seiva fica exposta à contaminação por morcegos". Porcos também podem servir como hospedeiros intermediários, aumentando o risco de circulação do vírus em criadouros e fazendas.
Prevenção, diagnóstico e tratamento
A prevenção do vírus Nipah baseia-se principalmente em evitar o contato com animais potencialmente infectados e com pessoas que apresentem sintomas. O desmatamento e o avanço urbano sobre habitats naturais tornam esse desafio ainda maior.
Atualmente, não existe vacina aprovada contra o vírus Nipah. O diagnóstico também apresenta dificuldades, como explica Lázari: "Não há sinais específicos que diferenciem o quadro de outras encefalites virais. A confirmação depende de um exame de PCR, disponível só em laboratórios de referência".
O tratamento consiste principalmente em suporte clínico, incluindo:
- Hidratação adequada
- Suporte respiratório com oxigênio
- Medicações para controlar a inflamação
- Internação em UTI quando necessário
Brandão ressalta que "por enquanto só existem antivirais experimentais", destacando a importância do tratamento de suporte.
Risco de pandemia e vigilância epidemiológica
Apesar da alta letalidade, especialistas avaliam que o risco de pandemia pelo vírus Nipah é considerado baixo atualmente. Lázari afirma: "Embora o vírus seja considerado prioritário pela OMS, ele não é visto como um potencial causador de pandemia".
Brandão explica dois fatores que limitam sua disseminação global: "O Nipah ainda não chegou a hospedeiros locais, como morcegos, fora de sua principal área de ocorrência" e "também é um micro-organismo que ainda não aprendeu a transmitir-se bem entre pessoas, como acontece com os vírus da gripe e da covid".
No entanto, a vigilância epidemiológica permanece crucial. Com a destruição ambiental e a facilidade de circulação global de pessoas e patógenos, especialistas alertam que todo cuidado é necessário para evitar que zoonoses como o vírus Nipah se transformem em novas emergências de saúde pública mundial.