Riscos do Venvanse e Ritalina: especialistas alertam sobre uso sem prescrição
Riscos do Venvanse e Ritalina: alerta de especialistas

O cantor Natanzinho Lima revelou em participação no podcast "Podpah" que utilizou cápsulas do medicamento Venvanse (lisdexanfetamina) para conseguir lidar com a intensa rotina de shows. A declaração reacendeu o debate sobre o uso de estimulantes do sistema nervoso central, como o metilfenidato (Ritalina e Concerta), para enfrentar jornadas exaustivas de trabalho ou estudo. Entre universitários e concurseiros, essas substâncias ganharam o apelido de "pílulas da inteligência", prometendo turbinar a concentração e o desempenho em provas e maratonas de estudo. No entanto, especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que não há comprovação científica de que esses medicamentos aumentem a inteligência em pessoas sem o transtorno para o qual foram desenvolvidos. O uso indiscriminado pode causar efeitos colaterais como aumento da ansiedade, dores de cabeça, perda de apetite, alucinações e até agravamento de quadros psiquiátricos preexistentes.

O que são esses medicamentos e como agem?

Tanto o metilfenidato (Ritalina, Concerta) quanto a lisdexanfetamina (Venvanse) pertencem à classe dos psicoestimulantes, drogas que excitam o sistema nervoso central. Na mesma família estão substâncias como cafeína, nicotina, cocaína e anfetaminas, todas capazes de alterar o humor e aumentar o estado de alerta. A ação ocorre nas sinapses, regiões de contato entre neurônios onde ocorre a troca de informações por meio de neurotransmissores. Normalmente, após transmitir o sinal, os neurotransmissores são degradados ou recaptados pelo neurônio que os liberou. O metilfenidato inibe essa recaptação, prolongando a ação das substâncias e estimulando os neurônios por mais tempo, especialmente os ligados à concentração. Já a lisdexanfetamina, derivada da anfetamina, aumenta a disponibilidade de noradrenalina e dopamina no cérebro — esta última associada a sensações de bem-estar e recompensa —, resultando em maior vigor, disposição e energia, com efeito estimulante mais potente que o do metilfenidato.

Para que servem, de fato?

O metilfenidato é indicado para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em crianças e adultos, além da narcolepsia. A lisdexanfetamina é indicada para TDAH e transtorno de compulsão alimentar, vendida em cápsulas de 30 mg, 50 mg e 70 mg, com comercialização que exige retenção de receita médica. O psiquiatra Amilton Santos Jr., professor da Unicamp, explica que o precursor do metilfenidato começou a ser estudado nos anos 1950 como remédio para enxaqueca, mas os cientistas perceberam que piorava o quadro. No entanto, observaram que crianças distraídas e agitadas ficavam mais concentradas com a medicação, levando à aplicação atual. Ainda assim, nem todo caso de TDAH necessita de remédio: "Ele não é cura. Não é o único tratamento que existe. Em saúde mental, nada prescinde de abordagens não farmacológicas", afirma o médico.

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E para quem não tem o transtorno?

Esses medicamentos devem ser administrados conforme avaliação individual de um especialista. Em pessoas com TDAH, os efeitos de melhora cognitiva são bem documentados. Já em quem não tem o transtorno, a eficácia no desempenho cognitivo é discutível. Estudos mostram que o metilfenidato pode manter alguém acordado por mais tempo, mas o descanso após o estudo é igualmente importante para consolidar o aprendizado. "O metilfenidato não aumenta a inteligência. Ele aumenta a janela atencional, o período de concentração", explica Santos Jr. Em pessoas sem TDAH, o uso de lisdexanfetamina pode ter efeito contrário: doses mais altas podem diminuir a memória e a atenção. Há risco de rabdomiólise, hepatite e desenvolvimento de tolerância, exigindo doses cada vez maiores. Além disso, pode causar aumento da pressão arterial, alterações no ritmo cardíaco e lesão cerebral. Em casos extremos, o uso sem acompanhamento pode colocar a vida em risco.

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Quais são os riscos do uso sem prescrição?

A automedicação com esses remédios pode não ajudar no desempenho e resultar em sérios problemas de saúde. O pesquisador Fernando Freitas, da Fiocruz, aponta que esses medicamentos alteram a química do cérebro, criando dependência psicológica que estimula o aumento da dose. "Ele ajuda a concentrar, mas é algo passageiro", lembra. Segundo Santos Jr., em pessoas com níveis normais de atenção, o efeito é como uma overdose de cafeína. O uso indiscriminado pode aumentar ansiedade, dores de cabeça, perda de apetite e, em casos raros, causar alucinações e piorar quadros de esquizofrenia ou transtorno bipolar. Muitos pacientes não sabem se têm predisposição até o primeiro episódio. Há também o efeito rebote: ao parar, a pessoa pode ficar deprimida, sem ânimo e energia, caracterizando abstinência. A recomendação dos especialistas é clara: nada de uso por conta própria. "Todos os remédios têm indicações e contraindicações. O mais importante é não fazer uso aleatório sem supervisão médica", finaliza o psiquiatra.