Polilaminina: Nova esperança brasileira para lesões medulares avança em testes clínicos
Polilaminina: esperança para lesões medulares em testes no Brasil

A polilaminina, uma versão modificada da laminina – proteína naturalmente produzida pelo corpo humano – está emergindo como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula espinhal no Brasil. Desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), essa substância, estudada há quase três décadas, recebeu recentemente autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar a fase 1 de estudos clínicos, marcando um passo crucial em sua trajetória científica.

O que é a polilaminina e como ela funciona?

A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína abundante na placenta durante o desenvolvimento embrionário, onde desempenha funções essenciais na organização dos tecidos e no crescimento celular. Segundo a pesquisadora Tatiana Sampaio, líder do projeto na UFRJ, a laminina é uma proteína potente que auxilia no crescimento dos axônios, estruturas neuronais rompidas em lesões medulares.

Como um complexo de moléculas de laminina, a polilaminina atua como um andaime biológico, oferecendo suporte para que as células nervosas da medula lesionada reconstruam os axônios. Você tem uma proteína que já é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma melhorada em laboratório, explica Sampaio. A produção envolve a extração da laminina de placentas doadas, seguida de purificação e transformação em polilaminina no centro cirúrgico, no momento da aplicação.

Evidências e resultados preliminares

Estudos preliminares conduzidos pela UFRJ em parceria com a farmacêutica Cristália mostraram resultados promissores. Em um teste-piloto com oito pacientes com lesões medulares completas do tipo A – as mais graves – a aplicação direta da polilaminina na medula durante cirurgia resultou em recuperação de movimentos em seis dos oito voluntários. Isso representa uma taxa de 75%, significativamente superior aos 15% observados em dados históricos de tratamentos convencionais.

Um caso notável é o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após um acidente de mergulho. Após receber a polilaminina em janeiro no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, ela voltou a mexer o braço direito, conforme relato de sua família. No entanto, é importante ressaltar que esses resultados são preliminares e o estudo ainda não passou por revisão por pares.

Próximos passos e desafios regulatórios

A fase 1 dos testes clínicos, aprovada pela Anvisa, envolverá cinco pacientes com lesões medulares completas na região torácica, avaliando a segurança e tolerância da substância. Se bem-sucedida, o estudo avançará para as fases 2 e 3, que analisarão a eficácia em maior escala. Rogério Almeida, da Cristália, estima que, se tudo correr conforme o planejado, o pedido de registro definitivo possa ser submetido até 2028.

Enquanto isso, alguns pacientes têm obtido acesso à polilaminina por meio de liminares judiciais, uma prática que Sampaio considera errada do ponto de vista científico, devido à falta de coleta de dados estruturada e riscos potenciais. A médica fisiatra Ana Rita Donati, da AACD, alerta para a necessidade de cautela, lembrando que melhorias espontâneas podem ocorrer mesmo sem novos tratamentos.

Impacto e perspectivas futuras

Lesões medulares, frequentemente resultantes de acidentes como quedas ou colisões no trânsito, podem levar à paraplegia ou tetraplegia, com opções terapêuticas limitadas atualmente. A polilaminina surge nesse contexto como uma potencial revolução, embora seu caminho até a comercialização ainda seja longo. Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível, destaca Sampaio, refletindo o otimismo cauteloso da comunidade científica.

Com a colaboração de instituições como o Hospital das Clínicas da USP e a Santa Casa de São Paulo, os pesquisadores buscam consolidar evidências robustas que possam, no futuro, oferecer uma nova opção terapêutica para milhares de brasileiros afetados por essas lesões debilitantes.