Planta do candomblé motiva investigação científica sobre tratamento do câncer
A integração entre ciência e saberes tradicionais ainda não é uma realidade consolidada na medicina brasileira, porém pesquisas recentes demonstram que essas duas áreas podem se complementar de forma significativa. É nesse caminho de convergência que atua a biomédica, professora e pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lays Souza da Silva, que encontrou no candomblé a inspiração para buscar soluções terapêuticas para diversas doenças.
Aranto: da tradição ancestral ao laboratório científico
Lays investiga o potencial medicinal do aranto, também conhecido como mãe-de-milhares (Kalanchoe daigremontiana Raym). Com base em suas próprias pesquisas e em outros estudos sobre o gênero Kalanchoe, a cientista busca estabelecer um diálogo profundo entre conhecimentos ancestrais e métodos científicos rigorosos. Em 2024, ela publicou uma pesquisa que identificou diversos compostos bioativos na planta com indícios bastante promissores de ação antitumoral, anti-inflamatória e antioxidante.
Essas substâncias demonstraram capacidade de combater células cancerígenas, reduzir processos inflamatórios e proteger o organismo contra danos celulares. Os testes iniciais também indicaram que a planta não apresentou sinais relevantes de toxicidade nas análises preliminares, um dado importante para pesquisas futuras.
Apesar dos resultados animadores, a pesquisadora reforça com ênfase que o estudo representa apenas uma evidência inicial do uso potencial da planta e que isso não significa que ela possa ser utilizada, neste momento, como tratamento convencional. São necessárias aplicações de testes mais avançados e outras investigações minuciosas antes de qualquer uso oficial na medicina brasileira.
Trajetória que une religião e ciência
Entre as espécies estudadas, o aranto já havia apresentado indícios de ação contra células tumorais em pesquisas anteriores. O diferencial do trabalho conduzido por Lays está na metodologia de preparo: os extratos analisados seguem métodos semelhantes aos utilizados tradicionalmente, com o objetivo de observar na prática os efeitos desse uso específico.
A trajetória de Lays nessa linha de pesquisa, no entanto, não começou no ambiente laboratorial, mas sim em um contexto religioso significativo. Ao se aprofundar em conhecimentos de matriz africana, ela teve o primeiro contato com plantas do gênero Kalanchoe em um terreiro de candomblé, onde percebeu sua aplicação dentro das tradições ancestrais.
A partir dessa vivência transformadora, surgiu a curiosidade científica genuína: ela desejava compreender se aquilo que já possuía propriedades conhecidas na tradição poderia ser comprovado através de estudos laboratoriais controlados. "Comecei a procurar evidências científicas e percebi que já existiam estudos indicando atividade contra células tumorais. Foi quando passei a explorar sistematicamente esse encontro entre saber ancestral e ciência contemporânea", explica Lays com convicção.
Etnofarmacologia: ponte entre tradição e ciência
Esse tipo de abordagem integradora faz parte de um campo científico chamado etnofarmacologia, que investiga especificamente o uso de substâncias naturais por grupos culturais específicos para fins medicinais tradicionais. Para a pesquisadora, a proposta fundamental dessa investigação é criar uma via de mão dupla, traduzindo os conhecimentos desses grupos em algo seguro, controlado e qualificado cientificamente.
Conforme detalha Lays, a etnofarmacologia possui três impactos principais na sociedade:
- Contribui significativamente para o desenvolvimento de novos fármacos, considerando que muitos medicamentos atuais se originam de compostos vegetais identificados tradicionalmente.
- Amplia o entendimento sobre o uso seguro de plantas medicinais – ponto extremamente relevante, pois o uso indiscriminado pode causar intoxicações graves.
- Reconhece o valor imensurável dos conhecimentos ancestrais, frequentemente tratados como "primitivos", mas que carregam séculos de observação cuidadosa e prática consolidada.
Alertas importantes sobre o uso de plantas medicinais
Apesar dos benefícios evidentes, a cientista faz um alerta crucial: "Geralmente as pessoas tendem a acreditar que o natural é automaticamente inofensivo, mas não é bem assim... existem diversos casos anualmente de intoxicação por plantas em todo o país". Segundo dados atualizados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), aproximadamente 1.500 casos de intoxicação por plantas são registrados anualmente no Brasil, o que comprova que o uso deve ser investigado com extremo rigor científico.
Impacto social e desigualdades no tratamento do câncer
Além do viés puramente científico, a pesquisa possui um forte impacto social que não pode ser ignorado. De acordo com a International Agency for Research on Cancer, as desigualdades sociais impactam diretamente todas as etapas do cuidado oncológico, desde a prevenção básica até o tratamento especializado, com populações de baixa renda enfrentando menor acesso ao diagnóstico precoce e maiores taxas de mortalidade por câncer.
Outra pesquisa relevante, publicada no Asia-Pacific Journal of Oncology Nursing, aponta que fatores como renda familiar, escolaridade e acesso ao sistema de saúde dificultam significativamente o início do tratamento adequado e aumentam consideravelmente o risco de agravamento da doença cancerígena. Isso evidencia de forma contundente que o câncer não é apenas uma questão biológica, mas também um profundo problema social que exige soluções integradas.
Esses dados preocupantes se refletem claramente na realidade brasileira. Conforme reportagem recente da EPTV, afiliada da TV Globo, um estudo abrangente mostrou que mulheres atendidas na rede hospitalar privada têm muito mais chances de detectar o câncer de maneira precoce — o que aumenta exponencialmente a probabilidade de cura —, cenário que não se repete na rede pública de saúde.
Todas essas evidências reforçam a importância crucial de pesquisas que busquem alternativas mais acessíveis economicamente, como a etnofarmacologia, que pode contribuir decisivamente para o desenvolvimento de tratamentos mais baratos e próximos da realidade das populações vulneráveis no Brasil.



