Peru vive clima de tensão extrema com acusações de fraude em eleições presidenciais
As eleições presidenciais no Peru mergulharam o país em um cenário de extrema tensão e incerteza política após o primeiro turno realizado no domingo, 12 de abril de 2026. A disputa pela segunda vaga no segundo turno, marcado para 7 de junho, tornou-se um embate acirrado entre o candidato ultradireitista Rafael López Aliaga, do partido Renovação Popular, e o esquerdista Roberto Sánchez, do Juntos pelo Peru, herdeiro político do ex-presidente Pedro Castillo.
Recompensa por provas de fraude e posterior retratação
Nesta quinta-feira, 16 de abril, López Aliaga intensificou as acusações de irregularidades ao anunciar publicamente uma recompensa de 20 mil soles, equivalente a aproximadamente R$ 29 mil, para qualquer funcionário eleitoral que fornecesse provas concretas de fraude nas eleições. A proposta, divulgada através de comunicado oficial, gerou imediata controvérsia e foi retirada horas depois das redes sociais do candidato, possivelmente por receio de configurar crime de suborno.
"A atitude de López Aliaga reflete o clima de desconfiança que permeia o processo eleitoral peruano", analisam observadores políticos. Dois advogados já apresentaram denúncia criminal contra o candidato por incitação à insurreição, ampliando as complicações jurídicas em torno de sua campanha.
Disputa voto a voto com diferença mínima
Com 92,9% das urnas apuradas pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), a diferença entre os candidatos reduziu-se para apenas 7 mil votos. Roberto Sánchez mantém 11,978% dos votos válidos, enquanto Rafael López Aliaga possui 11,919%, em uma batalha eleitoral que mantém os peruanos em estado de alerta constante.
O esquerdista Sánchez surpreendeu ao subir da sexta para a segunda posição graças ao apoio massivo das áreas rurais e remotas do Peru, enquanto López Aliaga, que inicialmente ocupava o segundo lugar, viu sua vantagem desaparecer com a contagem progressiva dos votos. Apenas Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, já garantiu sua vaga no segundo turno com confirmação oficial.
Protestos e declarações polêmicas agravam crise
Na terça-feira, 13 de abril, López Aliaga convocou protestos em frente à Junta Nacional Eleitoral (JNE) em Lima, onde incitou seus seguidores a ocuparem as ruas para defender o que chamou de "liberdade ameaçada". Durante o discurso, o candidato ultradireitista lançou ataques homofóbicos contra Roberto Burneo, presidente da JNE, incluindo ameaças violentas e referências a supostas estratégias de boicote eleitoral utilizadas na Venezuela.
As eleições foram marcadas por diversos problemas operacionais, incluindo a negligência na montagem de mais de 200 seções eleitorais, o que impediu que aproximadamente 63 mil cidadãos exercessem seu direito ao voto. A Junta Nacional Eleitoral precisou prorrogar o processo eleitoral até segunda-feira para tentar sanar as deficiências, mas o episódio alimentou ainda mais as suspeitas de irregularidades.
Observação internacional e apoio político
A Missão de Observação Eleitoral da União Europeia, após acompanhar todo o processo, negou ter encontrado qualquer evidência concreta de fraude eleitoral. Esta posição foi endossada pelo Ministério Público peruano e pela Ouvidoria, instituições que mantêm a legitimidade dos resultados apurados até o momento.
O ex-presidente José Jerí, que sofreu impeachment em fevereiro após apenas quatro meses no cargo devido a reuniões fraudulentas, manifestou apoio público a López Aliaga. "Pensando no país, apesar de nossas divergências, espero que ele chegue ao segundo turno", declarou Jerí, destacando a influência que o partido Renovação Popular exercerá no próximo Congresso peruano.
Voto no exterior pode definir resultado final
Com 68% das urnas do exterior apuradas, López Aliaga mantém vantagem significativa entre os expatriados, somando 55.323 votos contra apenas 5.315 de Sánchez. Esta tendência favorece o candidato ultradireitista, que obteve maioria apenas na capital Lima, enquanto seu rival conta com apoio amplo no sul e em grande parte do norte do país.
O cenário político peruano permanece instável e polarizado, com acusações mútuas, protestos nas ruas e incerteza sobre o desfecho final da disputa pela segunda vaga presidencial. A população aguarda com apreensão a conclusão da apuração e a definição do adversário de Keiko Fujimori no segundo turno.



