Natalia Pasternak analisa polêmica da polilaminina e alerta sobre ciência baseada em evidências
A bióloga Natalia Pasternak, uma das principais defensoras do método científico e de políticas baseadas em evidências no Brasil, concedeu uma entrevista exclusiva na qual analisa criticamente a pesquisa brasileira com a polilaminina, medicamento experimental para tratamento de lesões na medula espinhal. Diretora do Instituto Questão de Ciência (IQC) e atualmente professora na Universidade Colúmbia nos Estados Unidos, Pasternak compartilha suas preocupações sobre uma história que mobilizou a opinião pública e gerou intensa controvérsia nas redes sociais.
Divulgação precoce e falta de transparência
"Toda essa discussão se baseia em palavras, não em dados científicos publicados", afirma Pasternak ao comentar o caso da polilaminina. A pesquisadora relata que o IQC ficou sabendo da pesquisa quando o laboratório Cristália realizou uma coletiva de imprensa em setembro do ano passado, gerando imediato alerta na comunidade científica. "Ciência não se faz com press release, inclusive em tom sensacionalista, como eles empregaram", critica a bióloga.
Pasternak destaca que quando um comunicado para a imprensa é divulgado antes da publicação de uma pesquisa revisada por pares em periódicos especializados, é necessário acender o sinal de alerta tanto na comunidade científica quanto entre jornalistas. "Vivenciamos isso na pandemia, criticamos duramente e agora estamos assistindo de novo", compara.
Pesquisa em estágio muito inicial
A bióloga é enfática ao afirmar que a pesquisa com a polilaminina está em estágio extremamente inicial. "Para ser muito clara, estamos falando de algo muito, mas muito no começo. Não há dados suficientes publicados nem sequer para levantar tamanha discussão", explica. Ela ressalta que sequer há certeza sobre a segurança da molécula para os pacientes.
Pasternak detalha o caminho científico que deveria ser seguido:
- Experimentos em laboratório com células para caracterizar a molécula
- Testes em animais (geralmente roedores) para investigar dose, segurança e efeitos
- Estudos com animais maiores como cães ou primatas não humanos
- Fases clínicas em seres humanos
"Não há dados publicados sobre essa fase de pesquisa pré-clínica. Somente os que estão no pré-print", afirma, referindo-se a artigos que ainda não passaram pela revisão da comunidade científica.
Problemas metodológicos e estatísticos
A pesquisadora aponta graves problemas no estudo piloto realizado com humanos. Originalmente planejado em 2016 para incluir 20 pacientes divididos entre grupo experimental e controle, o estudo foi radicalmente alterado após a inclusão do segundo paciente. "Eles decidiram excluir o grupo controle e recrutaram, ao final, apenas oito pacientes", relata.
Pasternak critica especialmente as afirmações sobre uma taxa de 75% de sucesso no tratamento: "Isso não se sustenta do ponto de vista estatístico quando se analisa apenas um grupo de oito pessoas. Não se faz análise estatística com oito pessoas!" Ela explica que para atingir significância estatística são necessárias dezenas, centenas ou até milhares de pacientes.
Autorização da Anvisa e judicialização
Sobre a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início da fase 1 do estudo clínico, Pasternak demonstra ceticismo: "É improvável que a Anvisa tenha considerado os dados disponíveis para o público, o pré-print e o estudo com cães, suficientes para justificar essa decisão". O IQC está recorrendo via Lei de Acesso à Informação para obter o dossiê submetido à agência.
A bióloga também critica a judicialização do caso, com pacientes obtendo a polilaminina por meio de decisões judiciais: "Isso reflete a falta de letramento científico dos tomadores de decisão no país. Não sabemos se é uma cura. Pior, a judicialização pode até colocar em risco o paciente".
Comparações e perspectivas futuras
Questionada sobre comparações com a fosfoetanolamina (a "pílula do câncer"), Pasternak reconhece diferenças mas aponta semelhanças na reação da mídia e da sociedade: "Ambos os casos mostram uma reação parecida da mídia e da sociedade, que abraçam a novidade sem um freio crítico, sem consultar, ao menos em um primeiro momento, especialistas externos".
Sobre as perspectivas para a pesquisa, a bióloga é realista: "A Anvisa autorizou um tipo de estudo que a gente chama de fase 1A. Estamos falando de uma pesquisa bem pequena, com apenas cinco pessoas. Esse estudo não vai nos dizer se o tratamento funciona, mas se ele é seguro para continuar a investigação clínica".
Pasternak finaliza com uma mensagem direta: "Em ciência, se você não publicou um estudo, você não fez. É assim. Hoje, temos um país inteiro debatendo resultados que, no fundo, nem sequer existem". E conclui: "Polilaminina, te vejo daqui a uns cinco anos! Boa jornada para você!"
