Obesidade pode aumentar em até 70% risco de hospitalização e morte por doenças infecciosas
Um estudo abrangente publicado na renomada revista científica The Lancet revela dados alarmantes sobre a relação entre obesidade e doenças infecciosas. A pesquisa, que acompanhou mais de 540 mil participantes ao longo de 14 anos, demonstra que a obesidade pode elevar em até 70% o risco de hospitalização e morte por infecções diversas.
Metodologia e descobertas principais
Os pesquisadores analisaram dados de dois grandes estudos na Finlândia, envolvendo mais de 67 mil adultos, e do banco de dados UK Biobank no Reino Unido, com informações de mais de 470 mil pessoas. O objetivo era compreender como o alto índice de massa corporal (IMC) influencia o agravamento de condições infecciosas.
Os resultados são contundentes:
- Pessoas com obesidade, definida como IMC superior a 30 kg/m², apresentaram risco 70% maior de hospitalização ou óbito por qualquer doença infecciosa em comparação com indivíduos com peso considerado normal.
- O risco aumenta progressivamente conforme o peso corporal sobe. Em casos de obesidade mais grave, com IMC acima de 40 kg/m², o perigo é três vezes maior do que para pessoas com peso saudável.
- As doenças infecciosas com risco elevado incluem gripe, Covid-19, pneumonia, gastroenterite, infecções urinárias e infecções respiratórias.
Mecanismos biológicos e preocupações futuras
Solja Nyberg, pesquisadora da Universidade de Helsinki e coautora do estudo, expressa preocupação com os achados. "Como as taxas de obesidade devem aumentar globalmente, o número de mortes e hospitalizações por doenças infecciosas associadas à obesidade também deve crescer", alerta.
Mika Kivimäki, líder da pesquisa da University College London, sugere possíveis explicações biológicas para essa associação. "É possível que a obesidade enfraqueça a capacidade do sistema imunológico de se defender contra bactérias, vírus, parasitas ou fungos infecciosos, resultando em doenças mais graves", analisa. Ele ressalta, no entanto, que mais investigações são necessárias para confirmar os mecanismos específicos envolvidos.
Diferenças regionais e limitações do estudo
A pesquisa também evidenciou disparidades significativas entre países na proporção de mortes por doenças infecciosas relacionadas à obesidade:
- Nos Estados Unidos, um quarto dos óbitos por infecções apresentou associação com a obesidade.
- No Reino Unido, essa condição esteve ligada a uma em cada seis mortes.
- No Vietnã, a proporção foi a mais baixa observada, com cerca de 1% dos casos.
Sara Ahmadi-Abhari, do Imperial College London, adverte sobre as limitações do estudo. "As estimativas do impacto global dão uma noção da dimensão do problema, mas devem ser interpretadas com cautela", afirma. Ela pondera que dados observacionais nem sempre são precisos, especialmente em países com menos recursos, o que pode afetar a confirmação de causalidade direta.
Contexto brasileiro e implicações para a saúde pública
Os achados ganham relevância especial no Brasil, onde mais de 60% da população está acima do peso, segundo dados do Ministério da Saúde. A pesquisa sugere que a obesidade pode ter sido determinante em aproximadamente uma em cada dez mortes por doenças infecciosas em 2023, destacando a urgência de políticas públicas eficazes para combater essa epidemia global.
Especialistas enfatizam a necessidade de abordagens integradas que vão além do simples cálculo do IMC, incluindo a reformulação de diagnósticos e estratégias de prevenção. A compreensão de mecanismos como a gordura bege, que ajuda a queimar calorias e pode regular a pressão arterial, também se mostra promissora para futuras intervenções.



