Uma proteína que trava e acelera o câncer
Dentro de cada célula do corpo humano, existe uma proteína chamada RAS. Ela funciona como um interruptor: liga quando a célula precisa crescer, desliga quando o processo termina. É uma peça fundamental da biologia celular, geralmente inofensiva. O problema surge quando esse interruptor fica preso na posição "ligado". No câncer de pâncreas, isso ocorre em mais de 90% dos casos. A mutação no gene RAS mantém a proteína permanentemente ativada, estimulando o crescimento e a multiplicação celular descontrolados. As células tumorais crescem sem freio, porque o acelerador nunca para.
Décadas de fracasso na busca por um inibidor
Durante décadas, pesquisadores tentaram bloquear o RAS, mas fracassaram. A molécula fica dentro da célula, dificultando a ação das drogas, e não oferece uma superfície clara para que um inibidor se encaixe. O oncologista Felipe Coimbra, do A.C.Camargo Cancer Center, compara o problema a uma fechadura cujo miolo foi polido: a chave entra, mas não encontra onde se firmar. O RAS tornou-se conhecido como "undruggable" — intratável, inalcançável.
O cenário sombrio do câncer de pâncreas
O câncer de pâncreas é silencioso, sem sintomas precoces. Cerca de 80% dos diagnósticos ocorrem em estágio avançado ou metastático. Nos EUA, 60 mil pessoas são diagnosticadas por ano; 50 mil morrem. No Brasil, são 13 mil novos casos e 12 mil mortes anuais. A sobrevida em cinco anos para a forma metastática é de apenas 3%. Até agora, a única opção era a quimioterapia intravenosa, que controla a doença por algum tempo, mas falha rapidamente. A sobrevida mediana em segunda linha era de 6,7 meses.
O estudo RASolute 302 e o daraxonrasib
Foi nesse contexto que o ensaio clínico de Fase 3 RASolute 302 testou o daraxonrasib, um comprimido oral tomado uma vez ao dia. O estudo randomizou cerca de 500 pacientes em dois grupos: um recebeu o daraxonrasib; o outro, quimioterapia padrão intravenosa. Os resultados finais mostraram que a sobrevida mediana no grupo do comprimido foi de 13,2 meses, contra 6,7 meses no grupo de quimioterapia. A razão de risco foi de 0,40, indicando uma redução de 60% no risco de morte. Todos os endpoints primários e secundários foram atingidos.
O oncologista Stephen Stefani, do Oncoclínicas, destaca: "Um comprimido dobrou a sobrevida desses pacientes. Em oncologia, isso é muito impactante." Felipe Coimbra complementa: "Eram pacientes metastáticos que já haviam feito quimioterapia. Ter uma resposta superior à da primeira linha, numa segunda etapa, foi surpreendente." Cerca de um terço dos pacientes teve redução do tumor; 80% apresentaram estabilidade ou resposta.
O mecanismo inovador: inibidor pan-RAS
O daraxonrasib difere das tentativas anteriores por ser um inibidor pan-RAS, agindo sobre múltiplas variantes da proteína, incluindo G12D, G12V e G12R, as mais comuns no câncer de pâncreas. Stefani explica: "Em vez de tentar identificar a peça com defeito, ele age sobre o acelerador inteiro e o destrava." A droga é oral, permitindo que o paciente a tome em casa, sem necessidade de ir ao hospital. Os efeitos colaterais mais comuns — reações de pele, náuseas, fadiga, mucosite — são considerados seguros com acompanhamento médico.
Perspectivas regulatórias e acesso no Brasil
Nos EUA, o FDA já concedeu ao daraxonrasib o status de Breakthrough Therapy e designação de medicamento órfão, além de selecioná-lo para o programa National Priority Voucher. O acesso compassional foi autorizado. Os dados completos serão apresentados no congresso da ASCO em junho de 2026. No Brasil, o caminho é mais longo: a Anvisa precisa aprovar o medicamento, a ANS deve publicar diretrizes para cobertura pelos planos de saúde, e o SUS enfrenta desafios financeiros. O custo estimado da droga é de cerca de R$ 50 mil por mês, enquanto o SUS paga aproximadamente R$ 1.986 por paciente. Coimbra alerta: "A expectativa é que o medicamento chegue em breve, mas o acesso no Brasil ainda é uma incógnita."
Cautela e esperança
Os médicos fazem questão de ressaltar que o daraxonrasib não é a cura. O estudo foi feito em pacientes metastáticos em segunda linha; ainda não se sabe sua eficácia em primeira linha ou em outros tipos de tumor com mutação RAS. Pesquisas futuras explorarão combinações com imunoterapia e uso precoce. "Não podemos falar em cura, mas é uma opção que não existia — e um alvo molecular perseguido por décadas", conclui Coimbra. O daraxonrasib provou que o interruptor pode ser destravado, que o "undruggable" é uma palavra provisória. Numa doença em que meses importam, isso é significativo.



