Neurologistas alertam sobre falta de evidências científicas para uso da polilaminina em lesões medulares
Neurologistas alertam sobre falta de evidências para polilaminina

Entidades médicas reforçam ausência de comprovação científica sobre polilaminina

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou nesta segunda-feira (23) uma nota oficial na qual reafirma categoricamente a inexistência de publicações científicas que demonstrem a segurança e a efetividade da polilaminina no tratamento de lesões medulares em seres humanos. A entidade, que representa mais de 5.000 neurologistas em todo o território nacional, enfatiza que todos os novos tratamentos médicos devem obrigatoriamente percorrer um protocolo rigoroso de estudos, progredindo metodicamente da fase 1 até a fase 3, antes de qualquer possibilidade de aprovação para prescrição médica regular.

Recomendações oficiais das sociedades médicas

"A ABN recomenda que o uso de novas terapias deva ser realizado apenas em contexto de protocolos de ensaio clínico com rigor científico e aprovados por comitês de ética, conforme legislação brasileira", destaca trecho da nota oficial. Paralelamente, a Sociedade Brasileira de Neurologia também emitiu comunicado nesta mesma data, lembrando que as lesões medulares constituem uma condição de saúde extremamente complexa, cujo manejo adequado exige uma abordagem multidisciplinar fundamentada em protocolos bem estabelecidos e em evidências científicas sólidas.

"Embora a pesquisa nessa área seja intensa e promissora, a aplicação de novos protocolos requer comprovação de evidência científica robusta, especialmente quanto à segurança, eficácia e indicação", afirma outro trecho do documento. As manifestações conjuntas dessas importantes entidades da neurologia brasileira se somam a um editorial recente publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), que alerta vigorosamente para os riscos de se confundir pesquisa experimental com aplicação clínica direta.

Contexto de judicialização e exposição midiática

O editorial defende ainda que quaisquer questionamentos sobre as evidências relacionadas à substância devem ocorrer através de processos formais de revisão por pares e com total transparência, evitando-se assim a judicialização prematura ou a exposição midiática inadequada. A polilaminina encontra-se atualmente em fase de testes de segurança conduzidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), porém, nos últimos meses, a substância ganhou destaque significativo na imprensa nacional e nas redes sociais.

Relatos isolados de pacientes começaram a ser tratados publicamente como suposta evidência de eficácia, levando dezenas de pessoas a recorrerem ao Poder Judiciário para obter judicialmente a aplicação da substância. É crucial destacar que essas aplicações não fazem parte de nenhum ensaio clínico formal estruturado. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo de pesquisa cientificamente validado e supervisionado.

Estudo preliminar e necessidade de validação científica

Os casos ganharam escala e visibilidade após a divulgação, no ano passado, de um estudo preliminar realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderado pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, que envolveu oito pacientes. De acordo com os dados preliminares apresentados, dos oito pacientes que receberam a polilaminina, seis apresentaram evolução clínica, ou seja, demonstraram alguma recuperação dos movimentos.

Entretanto, é fundamental compreender que esses resultados ainda não passaram pelo processo crítico de revisão por pares, no qual especialistas independentes e qualificados analisam minuciosamente a metodologia empregada, os dados coletados e as conclusões apresentadas. Este processo é considerado absolutamente fundamental para validar quaisquer achados no campo da ciência médica.

Perspectivas futuras e caminho regulatório

Segundo especialistas consultados, existem evidências científicas consistentes indicando que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a utilização da polilaminina, dependendo diretamente do tipo específico de lesão e da resposta individual de cada organismo. Caso futuros estudos demonstrem de forma conclusiva que o uso da substância é seguro (o que corresponde à fase 1 dos estudos), será imprescindível ampliar os testes para as fases 2 e 3.

Nessas fases subsequentes, serão avaliadas criteriosamente a eficácia terapêutica real, as doses adequadas e os possíveis efeitos adversos em populações maiores e mais diversificadas. Somente se todas essas fases forem bem-sucedidas e os resultados forem robustamente comprovados, será possível solicitar o registro sanitário junto aos órgãos reguladores. Após a devida aprovação regulatória, o medicamento poderá então ser comercializado e prescrito dentro dos parâmetros legais e éticos estabelecidos.