Brasileiros desenvolvem inteligência artificial para identificar dor em recém-nascidos
Uma equipe multidisciplinar formada por médicos e engenheiros brasileiros está desenvolvendo um programa inovador de inteligência artificial capaz de identificar dores em recém-nascidos com precisão inédita. A iniciativa representa um avanço significativo nos cuidados neonatais, especialmente para bebês prematuros que ainda não possuem capacidade de verbalizar sensações.
O desafio da dor não verbalizada
"Quando definimos dor, estamos falando de algo verbal. Por exemplo, pergunto: 'você está com dor? Que tipo de dor é?'", explica Ruth Guinsburg, professora de pediatria neonatal da Unifesp e coordenadora-geral da UTI Neonatal do Hospital São Paulo. "Em um recém-nascido que ainda não tem capacidade de verbalizar a dor, é muito difícil determinar a intensidade e o tipo específico de desconforto", complementa a especialista.
Essa dificuldade é vivida diariamente por famílias como a de Thaíssa Pereira, mãe do pequeno Victor Benício, nascido prematuro e internado na UTI neonatal. "Como ele está com cansaço respiratório, não sei se está bem. Não sei como agir, como lidar, como tocá-lo", desabafa a mãe, exemplificando a angústia compartilhada por muitos pais.
Da escala tradicional à análise computacional
Atualmente, médicos em todo o mundo utilizam a NFCS (Neonatal Facial Coding System), uma escala internacional que avalia a dor em recém-nascidos baseando-se em quatro expressões faciais principais:
- Boca muito aberta ou tensa
- Queixo tremendo
- Testa contraída
- Língua para fora
Essas expressões são analisadas juntamente com dados fisiológicos como temperatura corporal, frequência cardíaca e pressão arterial. Tradicionalmente, dois médicos avaliam essas informações para determinar intervenções adequadas.
Colaboração entre medicina e engenharia
Em 2015, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e engenheiros da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial de São Bernardo do Campo) uniram forças para refinar esse processo. Durante quase dois anos, câmeras instaladas sobre incubadoras registraram as expressões faciais de recém-nascidos durante tratamentos diários.
As aproximadamente 300 horas de gravações transformaram-se em um extenso arquivo digital, que agora está sendo analisado por algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos especificamente para este propósito.
Funcionamento do sistema inovador
Os engenheiros alimentaram o programa de IA com as imagens coletadas, criando um modelo computacional testado pioneiramente no Hospital São Paulo da Unifesp. "Quando programamos o modelo para observar a boca, o sulco nasolabial e características relacionadas, ele analisa e conclui indicando se há dor ou não", detalha Lucas Pereira Carlini, pesquisador da FEI.
O sistema gera gráficos que destacam as expressões faciais indicativas de dor. "Por exemplo, áreas vermelhas representam a boca. Percebemos que em determinados momentos a boca torna-se mais relevante para o modelo na tomada de decisão, especialmente quando há dor", explica Carlos Thomaz, professor do departamento de Engenharia Elétrica da FEI.
Reconhecimento internacional e aplicações futuras
A pesquisa já foi publicada em uma das mais prestigiadas revistas científicas internacionais, recebendo reconhecimento acadêmico significativo. Atualmente, o programa está sendo desenvolvido exclusivamente para uso hospitalar, mas suas implicações são amplas.
"Uma ferramenta desse tipo permitirá capturar, monitorar e mensurar a dor, detectando-a de forma a identificar os momentos que realmente exigem intervenção médica", finaliza um dos pesquisadores envolvidos no projeto.
Esta tecnologia promete revolucionar os cuidados neonatais, oferecendo aos médicos ferramentas mais precisas para compreender e aliviar o sofrimento dos pacientes mais jovens e vulneráveis.



