Mulher gaúcha completa 8 anos com coração artificial após doença de Chagas
Gaúcha vive 8 anos com coração artificial após doença de Chagas

Gaúcha celebra oito anos de vida com coração artificial após doença de Chagas

Uma história de superação e tecnologia médica impressiona o Rio Grande do Sul. Juçara Silva, 59 anos, moradora de Ijuí, no Noroeste do estado, completa oito anos vivendo com um coração artificial, dispositivo que lhe devolveu a esperança após complicações graves da doença de Chagas.

Dispositivo caro e vital

Em 6 de março de 2018, Juçara recebeu o HeartMate, aparelho que ajuda a bombear sangue para o coração e custa entre R$ 500 mil e R$ 750 mil, dependendo da cotação do dólar. Além dela, outras cinco pessoas no Rio Grande do Sul vivem com o mesmo dispositivo, que fica fora do corpo e é carregado em uma bolsa especial.

"Uma sobrevida maravilhosa. Hoje eu consigo fazer praticamente todas as minhas atividades. Eu faço caminhada, fisioterapia, participo de curso de artesanato", comemora Juçara, que já havia sido desenganada pelos médicos antes de receber o equipamento.

Restrições e celebrações da nova vida

Apesar das limitações – como não poder tomar banho de mar ou piscina, pois o aparelho não pode ser mergulhado em água – Juçara celebra cada conquista. "Eu fui à praia no ano passado, depois dos oito anos. Eu entrei, molhei meus pés, mas tenho outras coisas que vejo de maneira diferente: posso acompanhar o crescimento dos meus netos, estou aí para a formatura da minha filha", relata emocionada.

Ela acrescenta com sabedoria: "Hoje eu vou fazer o que eu posso, porque amanhã eu não sei", demonstrando a filosofia de vida que adotou após o implante.

Doença de Chagas: inimigo silencioso

A jornada de Juçara começou quando descobriu, durante uma doação de sangue, que tinha a doença de Chagas. A infecção, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, só se manifestou anos mais tarde. No final de 2016, ela adoeceu gravemente e foi diagnosticada com insuficiência cardíaca grave.

A doença de Chagas é particularmente traiçoeira porque não causa sintomas específicos inicialmente. A infecção se torna crônica de forma silenciosa, desenvolvendo complicações principalmente no coração. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 4,5 mil pessoas morrem em decorrência da doença por ano no Brasil.

Caminho difícil até o coração artificial

Juçara passou por diversas internações e já havia perdido as esperanças quando a médica Silvana Berwanger, que a atendia em Ijuí, lhe apresentou a possibilidade do HeartMate. Ela foi então encaminhada para o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, onde a cardiologista Livia Goldraich assumiu seu caso.

"Ela estava dependente de um medicamento intravenoso e não podia sair do hospital. Estava num quadro bastante limítrofe", descreve a médica sobre o estado crítico de Juçara em 2017.

Transplante impossível e alternativa tecnológica

O coração artificial tornou-se a única alternativa porque Juçara não podia receber transplante cardíaco. "Fazendo exames, a gente percebeu que ela tinha o que a gente chama de sistema imunológico bastante ativo. Algumas pessoas, por uma série de razões, podem ter, no sangue, anticorpos, moléculas que fazem com que seja muito difícil de conseguir um doador compatível", explica a cardiologista Livia Goldraich.

O apoio familiar foi fundamental nesse processo. "Meus três filhos falavam: 'Mãe, enquanto tiver uma chance, um por cento, nós vamos lutar'. Com esse 1%, eu estou aqui há oito anos", emociona-se Juçara.

Acesso pelo SUS e tecnologia consolidada

Juçara recebeu o HeartMate através de um programa filantrópico de isenção fiscal do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, em conjunto com o Ministério da Saúde, que disponibiliza alguns desses aparelhos para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). A viagem dela para São Paulo foi custeada pela Secretaria da Saúde do RS.

A médica explica que o termo "coração artificial" é uma simplificação: "A gente chama de coração artificial porque é uma maneira mais fácil de entender, mas na verdade o coração da pessoa segue batendo, segue funcionando, segue no lugar. O aparelho precisa de energia para funcionar, então ele precisa de baterias que ficam fora do corpo. Tem a bomba implantada dentro do corpo, as baterias e o controlador".

Complicações e recuperação

O dispositivo não tem data de validade definida, mas alguns pacientes podem apresentar complicações. Juçara desenvolveu coágulos e precisou passar por uma nova cirurgia para substituir o aparelho, mas já se recuperou completamente.

"É uma pessoa super ativa na comunidade, engajada. A gente tem orgulho de ver a Juçara como ela é, com todas as atividades que nem a gente tem fôlego para fazer às vezes", elogia a médica do Hospital de Clínicas.

Tecnologia que salva vidas

A expectativa de vida para quem utiliza o HeartMate aumenta continuamente. A tecnologia, longe de ser experimental, já está consolidada e é amplamente utilizada nos Estados Unidos e na Europa. No Rio Grande do Sul, alguns pacientes recebem o aparelho temporariamente enquanto aguardam por um doador compatível para transplante.

A história de Juçara Silva representa não apenas um triunfo pessoal contra uma doença grave, mas também demonstra os avanços da medicina e a importância do acesso a tecnologias de ponta através do sistema público de saúde brasileiro.