IA na Obesidade: Colaboração com Médicos é o Futuro, diz Especialista
Futuro da obesidade é médico com máquina, não máquina ou médico

O discurso da inteligência artificial na medicina promete velocidade e precisão. No entanto, no tratamento da obesidade, uma doença crônica e multifatorial, a questão central não é se a tecnologia substituirá os médicos, mas como ela pode aprimorar o cuidado ao paciente. É o que defende o médico Ricardo Cohen, em análise publicada em 19 de janeiro de 2026.

Do Sensacionalismo à Inteligência Colaborativa

Estudos recentes, incluindo trabalhos publicados em revistas como Obesity Surgery e PLOS Digital Health, apontam para um caminho mais maduro. A aplicação mais eficaz da IA na obesidade não é a que tenta atuar de forma autônoma, mas a que opera dentro de um modelo de inteligência colaborativa. Este conceito combina deliberadamente a capacidade computacional com o julgamento clínico humano.

Um editorial na Obesity Surgery deixa claro: a IA é excelente para organizar dados, reconhecer padrões e padronizar tarefas. Contudo, os profissionais de saúde permanecem insubstituíveis para fornecer contexto, ética, empatia, responsabilidade e para tomar decisões em cenários de incerteza. O risco, segundo Cohen, é tratar "IA" como uma palavra mágica, agrupando desde algoritmos de risco até grandes modelos de linguagem como o ChatGPT, o que pode criar a ilusão perigosa de que um texto bem escrito equivale a um raciocínio clínico confiável.

A Âncora das Evidências Científicas

A diferença de qualidade fica evidente quando se testam esses modelos. Ao analisar a definição de obesidade clínica com base no relatório da Lancet Commission, modelos sem referência adequada produziram respostas genéricas, similares a conteúdos da internet. Quando ancorados em um documento científico robusto, as análises mudaram de patamar, tornando-se mais precisas, coerentes e clinicamente úteis, reconhecendo, por exemplo, os limites do IMC e a importância do impacto funcional da doença.

A lição é direta: modelo sem âncora gera obviedade; modelo bem contextualizado pode ajudar a sintetizar conhecimento, desde que sob supervisão humana. Essa lógica se aplica também à formação de consensos médicos. Em uma iniciativa internacional recente sobre o papel da IA na cirurgia metabólica e bariátrica, especialistas reconheceram o potencial da tecnologia em educação, treinamento e seleção de pacientes, mas também alertaram para riscos como a dependência excessiva e a necessidade de diretrizes éticas claras.

IA como Teste de Coerência, Não como Comando

Um exemplo concreto desse uso colaborativo veio da avaliação de diretrizes internacionais sobre medicamentos para obesidade no contexto da cirurgia bariátrica. Recomendações de especialistas foram confrontadas com análises independentes de diferentes sistemas de IA. Na maior parte, houve concordância. Nos pontos de divergência, a IA não "derrubou" as diretrizes, mas ajudou a identificar fragilidades nas evidências ou entusiasmo além dos dados disponíveis, levando a ajustes pontuais.

A IA funcionou como um teste adicional de coerência, não como o comandante do processo. É crucial notar que concordância entre IA e especialistas nem sempre significa neutralidade absoluta; muitas vezes indica apenas que ambos se baseiam no mesmo conjunto de evidências. A verdadeira utilidade da tecnologia está em provocar o raciocínio humano, explicitar incertezas e tornar as decisões mais transparentes. Sua força está menos em dar respostas e mais em fazer boas perguntas.

A Exigência de Maturidade Clínica

O recado para a comunidade médica é claro. A era da inteligência artificial não demanda médicos mais tecnológicos, mas sim médicos mais críticos. A inteligência colaborativa só funciona quando a pergunta é bem formulada, a fonte é confiável, os limites da tecnologia são explicitados e a responsabilidade final permanece com o ser humano.

A promessa real não é automatizar o cuidado, mas qualificar as decisões em um campo historicamente marcado por simplificações excessivas e pela culpabilização do paciente. A IA pode, sim, ser parte da solução para a obesidade. Porém, isso só será possível ao aceitar uma verdade menos confortável: ela não substitui a maturidade clínica – ela a exige.

Ricardo Cohen é head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, ex-Presidente da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (IFSO) e Chair do Clinical Care Committee da World Obesity Federation (WOF).