Estudo da Unicamp desvenda impacto do efeito sanfona na gordura marrom e no metabolismo
Até hoje, não existe uma dieta universal ideal para a perda de peso que seja eficaz para todas as pessoas. Um estudo recente da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) trouxe novas descobertas sobre um fenômeno comum entre quem busca emagrecer: o chamado efeito sanfona.
Pesquisa analisa mulheres e revela prejuízos metabólicos
Os pesquisadores do Laboratório de Investigação em Metabolismo e Diabetes da Faculdade de Medicina da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo, acompanharam durante quatro anos um grupo de 121 mulheres com idades entre 20 e 41 anos, apresentando diferentes biotipos corporais.
O estudo, publicado em dezembro na revista científica americana Nutrition Research, identificou que os episódios repetidos de perda e ganho de peso diminuem significativamente a atividade da gordura marrom, também conhecida como tecido adiposo marrom, causando um prejuízo considerável no metabolismo do organismo.
O papel crucial da gordura marrom no corpo humano
A gordura marrom é responsável pela queima de glicose e lipídios para produzir calor, contribuindo diretamente para o gasto energético do corpo. Além disso, esse tecido desempenha um papel fundamental na melhoria do metabolismo, ajudando a proteger contra condições como diabetes e doenças cardiovasculares.
Durante muito tempo, a comunidade científica acreditava que a gordura marrom existia apenas em recém-nascidos. No entanto, estudos mais recentes demonstraram que os adultos também possuem esse tecido, principalmente na região supraclavicular, que inclui o pescoço, acima da clavícula e ao redor da coluna vertebral.
Metodologia inovadora com termografia infravermelha
Para avaliar a atividade da gordura marrom, as participantes do estudo foram submetidas a testes com uma câmara de termografia infravermelha. Esse equipamento captura a radiação térmica emitida por objetos, convertendo-a em imagens visuais que mostram variações de temperatura com precisão.
As mulheres foram expostas inicialmente a um ambiente aquecido e, posteriormente, a uma temperatura de 18°C, considerada o principal estímulo para ativação da gordura marrom. Os pesquisadores mediram o aumento de temperatura resultante do gasto energético nesse tecido.
Resultados alarmantes para quem vive o efeito sanfona
As mulheres que relataram episódios de perda de peso intencional seguidos por recuperação não planejada apresentaram:
- Maior quantidade de gordura corporal total
- Acúmulo mais significativo de gordura visceral
- Indicadores metabólicos consideravelmente piores
- Atividade reduzida da gordura marrom
O médico endocrinologista Bruno Geloneze, orientador da pesquisa, explicou que a equipe conseguiu identificar que o tecido adiposo marrom não estava funcionando adequadamente nas mulheres que passaram por ciclos de efeito sanfona.
Compreendendo o mecanismo do efeito sanfona
O efeito sanfona descrito pelos pesquisadores refere-se ao processo repetitivo de perda rápida de peso, geralmente acima de quatro quilos, seguido pela recuperação involuntária desse peso. Esse padrão está frequentemente associado a dietas restritivas, uso de medicações para emagrecimento e até mesmo cirurgias bariátricas.
Segundo Bruno Geloneze, a disfunção da gordura marrom explica parcialmente por que as pessoas tendem a recuperar o peso perdido, devido à redução do gasto energético. Simultaneamente, essa disfunção aumenta o risco de desenvolver diabetes, doenças metabólicas e problemas cardiovasculares.
Consequências metabólicas do ciclo de peso
Quando uma pessoa vive um episódio de efeito sanfona, o peso que ela recupera volta predominantemente na forma de gordura branca e gordura visceral. Esse excesso de gordura acumulada prejudica diretamente a função da gordura marrom e causa um desequilíbrio metabólico significativo.
"Quando voltam para o seu peso original, elas passam a ter uma composição corporal piorada. Aumenta a quantidade de gordura corporal e, ao mesmo tempo, elas pioram o seu risco de desenvolver diabetes e das comorbidades da obesidade, inclusive aumentando o seu risco de doenças cardiovasculares", detalha o pesquisador.
Estratégias para reativar a gordura marrom
Embora não exista uma fórmula mágica para cessar definitivamente o efeito sanfona, o professor ressalta que certas práticas podem ajudar a reativar o tecido adiposo marrom, minimizando assim os efeitos metabólicos negativos.
A prática regular de exercícios físicos não apenas produz calor, mas também estimula a liberação de substâncias chamadas mioquinas, entre elas a irisina, que podem ativar diretamente o tecido adiposo marrom.
Uma alimentação balanceada, incluindo uma dieta rica em fibras vegetais não digeríveis, também pode liberar substâncias benéficas. As bactérias intestinais da microbiota digerem parcialmente essas fibras, produzindo ácidos graxos de cadeia curta que circulam pelo corpo e ativam o tecido marrom.
Esta pesquisa da Unicamp oferece uma peça crucial no quebra-cabeça do controle de peso, demonstrando que o efeito sanfona vai muito além da simples falta de força de vontade, afetando diretamente mecanismos biológicos fundamentais para a saúde metabólica.



