Mecanismos cerebrais explicam comportamento de agressores, mas não justificam violência
O neurocientista Fernando Rossi, em entrevista à série "Marcas" da TV Globo, desvendou as complexas alterações que ocorrem no cérebro de homens que cometem violência contra mulheres. Segundo o especialista, durante o ato agressivo, há uma hiperativação da amígdala cerebral, região responsável pelas respostas emocionais e de defesa, enquanto o córtex pré-frontal – área que julga, administra e controla impulsos – torna-se menos ativo.
O desequilíbrio entre emoção e razão
"No ato da agressão, ele hiperativa a amígdala cerebral, e isso é uma coisa já recorrente. E, na hora que ele hiperativa, torna o córtex pré-frontal, que julga, que administra, que controla os impulsos, menos ativo. Aí prevalece, de fato, as ações emocionais, os impulsos emocionais", explicou Fernando Rossi.
Essa visão da neurociência não busca justificar a violência, mas mapear padrões neurais para identificar pontos que podem ser modificados, rompendo ciclos destrutivos. O cérebro não é o único condicionante do comportamento violento – relações sociais e a socialização desde a infância desempenham papéis cruciais.
Como o cérebro coordena defesa e ataque
O cérebro humano é dividido em partes cuja ativação ou desativação reflete diretamente no comportamento. Duas áreas centrais nos mecanismos de defesa, ataque e fuga são justamente a amígdala cerebral e o córtex pré-frontal.
"A amígdala cerebral é um centro de defesa do nosso organismo. Ela existe para nos defender dos perigos reais. Mas, para o cérebro, não existe real e imaginário, para ele tudo é real. Então, na hora em que eu acho que estou sendo desafiado, essa amígdala se ativa", detalhou o neurocientista.
Quando hiperativada, a amígdala – responsável pelos aspectos emocionais e impulsivos – acaba "adormecendo" outras regiões. O problema surge quando ocorre um desbalanceamento persistente, com uma área sempre mais ativa que outra.
O peso da socialização e do contexto machista
"O fato de o cérebro funcionar dessa forma não significa que isso seja uma justificativa para tal ação. Tudo começa antes do cérebro, começa no pensamento, no trabalho do sentimento, que isso vem desde a infância, se construindo. E o cérebro apenas vai decodificar aquilo e mandar os seus comandos", enfatizou Rossi.
Pesquisas indicam que muitos agressores vêm de infâncias conturbadas, marcadas por abusos ou exposição à violência. Essa vivência é decodificada pelo cérebro como realidade cotidiana, normalizando a agressividade. Cenários sociais machistas, que validam comportamentos violentos, reforçam ainda mais esses padrões.
O ciclo da dopamina e a automatização da violência
Ao ter atitudes violentas endossadas pelo meio social, o agressor experimenta uma sensação de prazer com liberação de dopamina – hormônio associado à recompensa. Isso fortalece e perpetua o ciclo de violência.
"Se eu sou um agressor e tenho ideias machistas, na hora em que eu agrido aquela mulher e justifico para um grupo de conhecidos e algum deles dá o aval, vai reforçando esse prazer, e aí libera a dopamina. Isso, com o tempo, vai se tornando algo automático, ele não precisa mais racionalizar", alertou o especialista.
Caminhos para mudança: terapia e vontade
O ponto de partida fundamental para a transformação é a vontade. Terapias focadas no comportamento e nos padrões de alterações cerebrais, como a terapia cognitivo-comportamental, mostram-se eficazes tanto para vítimas quanto para agressores.
"A vontade é a condição sine qua non [indispensável] para qualquer mudança. Ingressar numa terapia, tanto o agressor como a vítima, porque a gente sempre pensa na vítima, mas o agressor também já foi vítima certamente, então ele precisa. Os dois precisam entrar numa terapia com vontade de melhorar", defendeu Fernando Rossi.
Durante o processo terapêutico, é possível reativar áreas cerebrais silenciadas, fortalecendo o córtex pré-frontal para que racionalize com mais energia os eventos, enquanto se trabalha na transformação da memória emocional.
Falhas na ressocialização e cenário alarmante em Pernambuco
Os casos de violência contra mulheres seguem alarmantes, especialmente em Pernambuco. Em 2025, o estado registrou aumento de 15,8% nos feminicídios em relação a 2024, com 88 mulheres mortas em crimes relacionados à sua condição de gênero – o maior número em oito anos.
Uma preocupação adicional é a inadequada ressocialização de agressores presos. "A punição deveria ser construtiva, reeducativa. Não existe a reeducação, não existe a preocupação. O agressor paga a pena, sai e ele volta com mais raiva ainda. Na maioria das vezes, não vou generalizar, mas ele volta a praticar agressões. As marcas ficaram no cérebro e não foram trabalhadas", criticou o neurocientista.
Serviços de apoio e denúncia
No Recife, mulheres vítimas de violência podem buscar acolhimento em locais como:
- Centro de Referência Clarice Lispector: Rua Doutor Silva Ferreira, 122, Santo Amaro (atendimento 24 horas);
- Serviço Especializado e Regionalizado (SER) Clarice Lispector: Avenida Recife, 700, Areias (atendimento de segunda a domingo, das 7h às 19h);
- Salas da Mulher em cinco unidades do Compaz.
Para denúncias em Pernambuco:
- Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher, 24 horas);
- Polícia Militar: 190 (durante crimes em curso);
- Disque-Denúncia da Polícia Civil no Grande Recife: (81) 3421-9595;
- Ministério Público de Pernambuco: 0800.281.9455 (segunda a sexta, 12h-18h);
- Ouvidoria da Mulher de Pernambuco: 0800.281.8187.



