A oftalmologista Karla Orsine Murta Dias, de 38 anos, formada pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), está fazendo história na medicina internacional. Ela é a única brasileira em uma equipe de pesquisadores que desenvolve um método pioneiro para restaurar a visão em pacientes com hipotonia ocular, uma condição rara e debilitante.
Trajetória de excelência: da UFU a Londres
Nascida em Araçuaí, Minas Gerais, e criada em Uberlândia, Karla sempre demonstrou interesse pela medicina. Filha de uma professora e de um médico oftalmologista, ela foi incentivada desde cedo a seguir a carreira médica. Durante a infância, entre os sete e onze anos, passou por cirurgias que a aproximaram do ambiente hospitalar, despertando sua curiosidade sobre doenças e tratamentos.
Seu desempenho acadêmico foi notável desde cedo. Karla conciliava a escola com aulas particulares de inglês e redação, e em uma feira de ciências, venceu ao levar equipamentos do pai para examinar colegas, demonstrando já então sua paixão pela oftalmologia.
Formação e especialização
O sonho se concretizou quando Karla passou no vestibular para Medicina na UFU, instituição que sempre desejou. Durante a graduação, foi bolsista de iniciação científica e presidente da Liga de Oftalmologia. Formou-se em 2012 e completou quatro anos de residência no Hospital de Clínicas da UFU, especializando-se em oftalmologia.
Após quase três décadas em Uberlândia, mudou-se para Brasília para uma subespecialização em córnea e lentes de contato. Pouco depois, acompanhou o marido, empresário, em sua transferência para Londres, onde enfrentou o desafio de adaptação a uma nova cultura.
Pesquisa inovadora no Moorfields Eye Hospital
Em Londres, Karla revalidou seu diploma em 2019 e iniciou como pesquisadora em retina no Southampton University Hospital. Logo depois, conquistou uma vaga no prestigiado Moorfields Eye Hospital, considerado um dos melhores hospitais oftalmológicos do mundo.
Foi lá que conheceu o médico Harry Petrushkin, especialista em uveítes e líder da pesquisa sobre hipotonia ocular, que a convidou para integrar o projeto. Desde 2022, Karla participa ativamente do estudo que já devolveu a visão a pacientes que haviam perdido a esperança.
O que é hipotonia ocular?
A hipotonia ocular é uma condição rara caracterizada pela baixa pressão intraocular, que pode ser causada por cirurgias, traumas, inflamações ou descolamento de retina. Os sintomas incluem visão embaçada, dor, inchaço e, em casos graves, perda irreversível da visão, exigindo tratamento clínico ou cirúrgico especializado.
Tratamento revolucionário
O tratamento desenvolvido pela equipe utiliza um gel transparente e espessante à base de água, chamado hidroxipropilmetilcelulose (HPMC), já empregado em cirurgias oculares e colírios. A inovação está na aplicação: o gel é injetado diretamente na câmara vítrea do olho, restaurando a pressão interna sem comprometer a passagem da luz.
O procedimento é realizado a cada três ou quatro semanas ao longo de dez meses e já beneficiou 35 pacientes. Os resultados iniciais foram publicados no British Journal of Ophthalmology, validando a eficácia do método.
Impacto humano e profissional
Para Karla, cada conquista na pesquisa representa um reencontro com seu sonho de infância de cuidar das pessoas. "A visão está ligada à autonomia, à dignidade e à forma como alguém se relaciona com o mundo. Ver pacientes retomarem atividades e confiança é um privilégio raro na medicina", afirmou a médica.
Ela destaca que devolver possibilidades de vida aos pacientes dá sentido a todo seu percurso profissional, unindo ciência, inovação e responsabilidade ética.
Desafios e superação no exterior
A mudança para Londres não foi fácil para Karla, que sente saudades da família, dos amigos, do calor humano e da comida brasileira. No entanto, sua determinação e competência a levaram a conquistar espaços em instituições de elite, onde hoje contribui para avanços médicos significativos.
Sua trajetória serve como inspiração para jovens profissionais brasileiros, demonstrando que a formação de qualidade no Brasil, combinada com dedicação e oportunidades internacionais, pode resultar em contribuições globais na área da saúde.