Estudo revela que bactérias na boca podem indicar endometriose em mulheres
Uma pesquisa científica publicada na revista BJOG: An International Journal of Obstetrics & Gynaecology descobriu que a boca pode oferecer pistas importantes sobre a endometriose, doença ginecológica que afeta milhões de mulheres em todo o mundo. O estudo identificou diferenças significativas nas bactérias presentes na cavidade oral, no intestino e na vagina de pacientes com a condição, um achado que pode revolucionar os métodos de diagnóstico no futuro.
Análise do microbioma em três regiões do corpo
A pesquisa analisou amostras do microbioma – o conjunto de microrganismos que habitam o corpo humano – de 64 mulheres, divididas em três grupos distintos: pacientes com endometriose confirmada, mulheres com outras condições ginecológicas e participantes saudáveis. As amostras foram coletadas especificamente na boca, no intestino (através de fezes) e na vagina, permitindo uma comparação abrangente entre os diferentes perfis bacterianos.
Os resultados demonstraram variações marcantes na composição bacteriana, principalmente na boca e no intestino. Um dos achados mais significativos foi o aumento da bactéria Fusobacterium na cavidade oral de pacientes com endometriose moderada ou grave. Esta bactéria é conhecida por sua associação com a doença periodontal, uma inflamação crônica das gengivas.
Conexão entre microbioma e inflamação sistêmica
Segundo os pesquisadores, as alterações bacterianas observadas em diferentes partes do corpo podem refletir mudanças no ambiente inflamatório associado à endometriose. A ginecologista e obstetra Márcia Fernanda Roque, doutoranda da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e professora da Faculdade Santa Marcelina, explica que bactérias da cavidade oral podem desencadear processos inflamatórios sistêmicos.
"Elas podem liberar componentes bacterianos ou toxinas que entram na corrente sanguínea e estimulam o sistema imunológico, contribuindo para inflamações em diferentes partes do corpo", afirma a especialista. Como a endometriose é considerada uma doença inflamatória, essas reações poderiam influenciar diretamente o ambiente onde a condição se desenvolve.
Principais descobertas da pesquisa
- Diferenças na composição bacteriana da boca e do intestino entre mulheres com e sem endometriose
- Aumento significativo da bactéria Fusobacterium na boca de pacientes com formas moderadas ou graves da doença
- Alterações em bactérias da vagina, incluindo maior presença de microrganismos associados a processos inflamatórios
- Perfis bacterianos distintos entre mulheres saudáveis, pacientes sem endometriose e aquelas com diagnóstico confirmado
O papel crucial do intestino na regulação hormonal
O microbioma intestinal também demonstrou ter influência sobre a doença. Segundo a Dra. Roque, algumas bactérias do intestino participam ativamente da regulação do metabolismo do estrogênio, hormônio diretamente relacionado à endometriose.
"Esse conjunto de microrganismos pode modificar a forma como o estrogênio circula no organismo. Como a endometriose é dependente desse hormônio, alterações no microbioma intestinal podem influenciar a progressão da doença", explica a médica. No estudo, os pesquisadores identificaram diferenças na diversidade bacteriana das amostras de fezes entre os grupos analisados.
Possibilidade de diagnóstico menos invasivo
Os autores do estudo apontam que, se confirmadas em pesquisas maiores, essas diferenças bacterianas poderiam permitir no futuro a criação de testes diagnósticos simples – como coleta com cotonete na boca ou na vagina – para ajudar a identificar a endometriose. Atualmente, o diagnóstico definitivo costuma exigir cirurgia laparoscópica, e muitas mulheres enfrentam anos de atraso até descobrir a doença.
Para a Dra. Roque, a ideia é extremamente promissora: "Imagine um marcador diagnóstico menos invasivo para uma doença que pode levar até 8 ou 10 anos para ser diagnosticada", destaca a especialista.
Limitações e necessidade de mais pesquisas
Apesar dos resultados animadores, os próprios pesquisadores ressaltam que o estudo é considerado piloto e apresenta limitações importantes. O número relativamente pequeno de participantes e fatores que influenciam o microbioma – como dieta, uso de antibióticos, hormônios e hábitos de vida – não foram totalmente controlados.
Especialistas afirmam que são necessários estudos maiores e multicêntricos para confirmar se essas assinaturas bacterianas realmente podem ser usadas como ferramenta diagnóstica confiável. A ginecologista e obstetra Vanessa Cairolli explica que a endometriose envolve múltiplos fatores biológicos e pode evoluir silenciosamente.
"Muitas pacientes descobrem a endometriose apenas quando investigam infertilidade. Em cerca de 70% dessas mulheres, a doença nunca havia sido diagnosticada antes", revela a médica.
Compreendendo a endometriose
A endometriose ocorre quando tecido semelhante ao revestimento interno do útero cresce fora da cavidade uterina. A doença afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode causar dor pélvica intensa, alterações menstruais significativas e infertilidade. Como os sintomas variam amplamente e o diagnóstico muitas vezes depende de procedimentos invasivos, muitas pacientes levam anos até receber a confirmação da condição.
Por essa razão, pesquisas que buscam marcadores menos invasivos da doença são consideradas uma das principais frentes da investigação científica sobre endometriose, oferecendo esperança para milhões de mulheres que sofrem com os sintomas e as dificuldades diagnósticas desta condição complexa.



