A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta segunda-feira (2), uma importante ampliação na indicação terapêutica da semaglutida. A substância, que é o princípio ativo dos medicamentos Wegovy e Ozempic, fabricados pela Novo Nordisk, agora pode ser prescrita para reduzir o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em adultos.
Público-alvo e impacto na saúde cardiovascular
A nova recomendação é válida especificamente para adultos que apresentem doença cardiovascular estabelecida ou condições de obesidade e sobrepeso. Essa decisão representa uma expansão significativa no uso da semaglutida, originalmente popularizada por seus resultados rápidos no tratamento da obesidade e desenvolvida para o controle do diabetes.
Com a autorização, médicos ganham a possibilidade de receitar esses medicamentos com o objetivo de diminuir os riscos dos chamados eventos cardiovasculares adversos maiores. O cardiologista Silvio Giopato, do Hospital das Clínicas da Unicamp, avalia que a medida tem potencial para reduzir a incidência de infartos no longo prazo.
Desafios de acesso e batalha regulatória
No entanto, Giopato alerta para um obstáculo crítico: o preço elevado dos medicamentos, que ainda representa um empecilho para o tratamento em larga escala. Ele destaca que, embora os sinais positivos possam começar a aparecer em um prazo de dois a três anos, o benefício pleno só ocorre com o uso contínuo da medicação.
"O aspecto econômico pesa, tornando a terapia não acessível para a maioria da população", afirma o especialista. Uma esperança para maior acessibilidade reside no fim da patente do Ozempic, previsto para março, mas a proximidade desse prazo tem gerado uma intensa batalha de lobbies no Congresso Nacional, conforme noticiado pela Folha de S.Paulo.
Base científica e resultados do estudo
Segundo a Anvisa, a decisão foi fundamentada em um estudo apresentado pela farmacêutica, que demonstrou que a semaglutida, quando acompanhada de dieta hipocalórica e aumento da atividade física, reduziu significativamente a ocorrência desses eventos cardiovasculares. A agência, no entanto, não especificou os resultados numéricos detalhados do estudo citado como parâmetro para a mudança.
Os medicamentos podem se tornar uma ferramenta valiosa para combater os altos números de infartos e AVCs no Brasil, que resultam em aproximadamente 400 mil mortes por ano, representando um grave problema de saúde pública.
Ampliação para doença renal crônica
Além da indicação cardiovascular, a Anvisa também permitiu o uso do Ozempic para o tratamento de pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, condições frequentemente associadas. A agência citou um levantamento da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), de 2024, que indica que 29% dos pacientes em diálise no Brasil são diabéticos.
O diabetes é reconhecido como a principal causa de doença renal crônica no mundo, pois a glicose alta no sangue, ao longo do tempo, lesiona os vasos sanguíneos dos rins, responsáveis por filtrar o sangue. De acordo com o estudo apresentado pelo fabricante, o uso do medicamento, em conjunto com a terapia padrão da doença, reduziu de maneira relevante a progressão da insuficiência renal e as mortes causadas por eventos cardiovasculares adversos maiores.