Quando se fala em Alzheimer, muitas pessoas associam a doença apenas à perda de memória. No entanto, um novo estudo da Mayo Clinic revela que as alterações biológicas podem começar muito antes, até mesmo antes dos 50 anos, de forma silenciosa e imperceptível. A pesquisa, publicada na revista Alzheimer’s & Dementia, analisou dados de 2.082 participantes, dos quais 87% ainda não apresentavam comprometimento cognitivo. Os cientistas acompanharam exames de sangue, testes cognitivos e exames de imagem cerebral para identificar uma espécie de “linha do tempo” da doença.
Resultados da pesquisa
O primeiro sinal observado surgiu antes dos 50 anos: pequenas alterações em marcadores sanguíneos ligados à beta-amiloide, uma proteína associada à formação de placas no cérebro, característica do Alzheimer. Por volta dos 60 anos, os testes cognitivos começaram a mostrar uma queda mais acelerada no desempenho médio dos participantes, com sinais mais perceptíveis, embora ainda sutis. Exames cerebrais também apontaram um avanço no acúmulo de amiloide.
Entre o fim dos 60 e o início dos 70 anos, surgiram sinais mais ligados ao desgaste das células cerebrais. Exames de sangue detectaram aumentos acentuados de marcadores de inflamação cerebral, lesão de neurônios e acúmulo da proteína tau, que forma emaranhados dentro das células nervosas. Além disso, houve uma redução mais evidente do volume do hipocampo, região crucial para a memória.
Detecção precoce
Os autores do estudo defendem uma mudança de foco: em vez de agir apenas quando a demência já está instalada, é essencial investir na detecção precoce. Embora ainda não haja cura, tratamentos para fases iniciais, como o Leqembi (lecanemabe), aprovado pela Anvisa em janeiro, buscam reduzir o acúmulo de beta-amiloide. A identificação precoce também permite acompanhamento médico mais próximo, controle rigoroso de fatores de risco (como pressão arterial e colesterol) e estímulos cognitivos.
Limitações e rastreamento
Os pesquisadores ressaltam que os dados mostram tendências populacionais e não preveem quem desenvolverá Alzheimer individualmente. Fatores como genética, doenças cardiovasculares e outras condições cerebrais também influenciam o envelhecimento cerebral. Ainda assim, os resultados ajudam a definir o momento ideal para estratégias de rastreamento. “Saber quando esses biomarcadores começam a mudar ajuda a indicar as idades em que o rastreamento preventivo pode ter maior impacto”, afirma Jonathan Graff-Radford, neurologista da Mayo Clinic e autor sênior do estudo.



