Mulher cega conquista diploma em massoterapia e supera desafio na aplicação de acupuntura
A determinação de fazer a diferença prevaleceu para duas mulheres de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, que enfrentam obstáculos diários devido à perda total da visão desde o nascimento. Fabiana Oliveira possui duas graduações, enquanto Daniela Cristina é formada em psicologia, demonstrando que a deficiência visual não é impedimento para alcançar objetivos acadêmicos e profissionais.
Superação na prática da acupuntura
Fabiana Oliveira Barros Anjos, de 44 anos, concluiu o curso de massoterapia em 2025, após dois anos e meio de estudos online. A maior surpresa para a estudante foi conseguir aplicar acupuntura em uma pessoa, mesmo sendo cega. "Uma coisa muito desafiadora para mim foi fazer a acupuntura. Eu achava que jamais daria conta. Quando apliquei em uma pessoa, eu mesma não acreditei", relembra Fabiana, emocionada.
Para identificar os pontos corretos de aplicação das agulhas, Fabiana utilizou a anatomia do próprio corpo como referência. Ela explorou partes da mão e percebeu as leves depressões nos locais indicados. "Foi um desafio muito grande, porque eu tinha que fazer uso de luva, então ficou mais difícil ainda sentir essas depressões, mas era preciso usar as luvas, porque às vezes acontecia de sangrar e, aí, você não pode ter contato com o sangue da outra pessoa", explica.
Adaptação e inclusão no ambiente acadêmico
A aplicação da terapia milenar chinesa ocorreu durante uma aula prática complementar, com o apoio essencial da professora e de uma colega voluntária. "Elas passaram toda a confiança para eu poder aplicar, para que eu não ficasse só ouvindo. Me deram total autonomia para eu aplicar, como qualquer outro aluno", destaca Fabiana. A profissional conseguiu aplicar a acupuntura em pontos básicos, que auxiliam no alívio de sintomas como ansiedade, dor de cabeça e insônia.
Fabiana era a única pessoa cega da turma em uma faculdade particular, o que exigiu adaptação tanto dela quanto da instituição. "Eu nunca gostei de ter nada de mão beijada: 'A gente te dá nota'. Mas, se eu fizesse isso, outra pessoa que viesse depois ia passar pelas mesmas dificuldades que eu passei. Então, eu mostrei para eles que não é a deficiência que vai me impedir de fazer alguma coisa", afirma com orgulho.
Trajetória educacional e profissional
Fabiana começou o curso no formato presencial, mas precisou migrar para o modelo remoto devido à pandemia de Covid-19. "Foi onde eu vi que eu dava conta de fazer uma faculdade online, qualquer coisa online, porque, até então, eu achava que teria que ser no presencial para estar ali em sala de aula", relata. Sendo a mais velha de três filhos, ela é a única da família com cegueira congênita, cuja causa os médicos não souberam explicar.
Além do curso na área da saúde, Fabiana é formada em secretariado executivo desde 2013. "Na época em que eu me formei, a maioria dos livros era física. Eu não tinha tanto acesso ao livro em Braile. Então, os livros precisavam ser gravados e tinha uma pessoa que fazia a gravação para mim, para eu poder estudar", conta. A faculdade na área administrativa permitiu que ela trabalhasse por 12 anos, e agora planeja estudar para concursos públicos e retornar ao mercado de trabalho.
Associação dos Cegos de Prudente e apoio comunitário
Fabiana frequenta a Associação dos Cegos de Prudente, entidade que atende 140 assistidos cegos ou com baixa visão, de dois a 89 anos, provenientes de 21 municípios diferentes. Os serviços oferecidos incluem:
- Assistência social e psicológica
- Fisioterapia e atendimento infantil
- Enfermagem e atendimento nutricional
- Atividades práticas como informática, Braile, artes e mobilidade
Para ajudar na manutenção dos projetos, a associação está realizando uma rifa solidária, com sorteio marcado para 8 de abril. Informações sobre como contribuir estão disponíveis nas redes sociais da instituição.
História de Daniela: maternidade e inclusão social
Daniela Cristina Santos Nunes, de 35 anos, também compartilha suas experiências de vida com a cegueira. Moradora de Prudente, ela frequenta a associação desde a infância, o que a auxiliou em diversas questões. Formada em psicologia desde 2013, Daniela optou por se dedicar às duas filhas, de 10 e seis anos, e à rotina doméstica. "Eu estou aproveitando cada momento das meninas", afirma.
As filhas não nasceram com perda visual, diferentemente de Daniela e do esposo, ambos cegos. O irmão gêmeo de Daniela nasceu com baixa visão e também se tornou cego há cinco anos. Um dos possíveis motivos para a cegueira seria o diagnóstico tardio da mãe com útero infantil.
Daniela enfatiza que leva uma vida praticamente normal, mas enfrenta julgamentos diários. "Quando a gente sai com as crianças, muitas pessoas falam a elas: 'Vocês quem estão cuidando do papai e da mamãe?'. Na verdade, nós que cuidamos delas, não elas de nós, né? Acho que o maior desafio é a sociedade não entender que nós somos completamente capazes de fazer praticamente tudo", desabafa.
Ela aprendeu a lidar com essas situações e passou a ignorar os comentários inadequados. "É uma ignorância da pessoa, não é minha. O problema, digamos assim, não é meu, é dela, é ela que não entende", reforça, demonstrando resiliência e autoconfiança.
