Lojas de luxo em BH vendiam roupas por até 10 vezes o custo de produção em oficinas com trabalho análogo à escravidão
Lojas de luxo em BH lucravam com trabalho análogo à escravidão

Lojas de luxo em Belo Horizonte lucravam com trabalho análogo à escravidão em oficinas terceirizadas

Duas conceituadas lojas de luxo localizadas no bairro Prado, na região Oeste de Belo Horizonte, estão no centro de uma investigação trabalhista que expõe práticas comerciais abusivas e violações graves de direitos humanos. As marcas Lore Confecções e Anne Fernandes, segundo relatório da Superintendência Regional do Trabalho em Minas Gerais, vendiam peças de roupa com margens de lucro que chegavam a ser dez vezes superiores ao valor pago pelas confecções em oficinas terceirizadas onde prevaleciam condições análogas à escravidão.

Margens exorbitantes e exploração extrema

Os números apresentados no documento são chocantes: uma peça comercializada por impressionantes R$ 1.143 nas vitrines das lojas foi adquirida por meros R$ 33 das oficinas de costura. Em outro caso emblemático, um conjunto vendido por aproximadamente R$ 900 tinha custo de produção de apenas R$ 53. Essas discrepâncias financeiras evidenciam um modelo de negócios que maximiza lucros às custas da dignidade humana.

O relatório, que ainda está sendo analisado para posterior encaminhamento ao Ministério Público Federal, identifica 17 pessoas como parte da mão de obra explorada nessas condições degradantes. Destas, 14 já foram resgatadas, incluindo uma adolescente que trabalhava nas oficinas.

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Condições degradantes em Betim e Contagem

As investigações apontam que as roupas eram produzidas em oficinas localizadas nos municípios de Betim e Contagem, na região metropolitana da capital mineira. Os ambientes foram descritos como precários e insalubres, com imigrantes bolivianos vivendo e trabalhando em condições completamente inadequadas.

Carlos Calazans, superintendente regional do Trabalho em Minas Gerais, relatou a situação encontrada pelos fiscais: "Na oficina que chegamos, encontramos bolivianos, crianças e lugares muito precários de alojamento onde essas pessoas ficavam. Locais onde faziam a comida, se alimentavam de forma muito irregular, insalubre. Ou seja, um ambiente muito insalubre, que caracteriza o trabalho degradante e o trabalho análogo à escravidão".

Violência contra crianças e imigrantes

Na primeira oficina fiscalizada, localizada no bairro Cruzeiro do Sul em Betim, o Conselho Tutelar identificou que duas crianças tinham seus direitos violados. Uma delas relatou que cuidava da irmã mais nova e de um bebê enquanto os adultos trabalhavam. No local, foram encontrados três bolivianos considerados donos da confecção e um trabalhador sem carteira assinada.

A produção ocorria em pequenos cômodos com rede elétrica improvisada e presença de materiais inflamáveis, criando um ambiente de alto risco. A partir dessa fiscalização inicial, os auditores chegaram a uma segunda oficina em Contagem, onde outros 14 trabalhadores bolivianos, incluindo uma adolescente, viviam e trabalhavam em condições semelhantes.

Dívidas e jornadas exaustivas

O relatório detalha que muitos trabalhadores tinham dívidas com os empregadores, relacionadas a custos como passagens e pequenos empréstimos. Recebiam menos de um salário mínimo por mês, mesmo enfrentando jornadas que ultrapassavam 12 horas diárias. Para atender à demanda das marcas, a produção chegava a três peças por hora em uma das oficinas, o que levava à contratação de mão de obra sem registro e ao excesso sistemático de horas trabalhadas.

Responsabilização das marcas

O documento da Superintendência Regional do Trabalho aponta que a marca Lore é "beneficiária direta da mão de obra precarizada", enquanto a Anne Fernandes é citada como "responsável por impor o modelo de produção às oficinas, que funcionariam como intermediadoras de mão de obra barata".

Segundo os auditores fiscais, as oficinas funcionavam como prestadoras de serviço quase exclusivas para as marcas, sem autonomia econômica. As empresas forneciam materiais, modelos e especificações, enquanto os custos de produção ficavam sob responsabilidade das confecções. Representantes das marcas visitavam regularmente os locais para acompanhar a produção, com uma funcionária da Lore fazendo visitas semanais e uma representante da Anne Fernandes realizando inspeções frequentes, conforme previsto em contrato.

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Posicionamento das empresas

Em nota, a Lore informou que não mantém qualquer vínculo com as oficinas citadas desde o fim de 2025, afirmando que "os contratos com as oficinas foram firmados com empresas autônomas para fornecimento de produto acabado. Não havia ingerência na gestão da produção ou da mão de obra por parte da nossa companhia".

A Lagoa Mundaú, responsável pela Anne Fernandes, manifestou repúdio a qualquer forma de trabalho que viole a dignidade humana e afirmou que "assim que tomamos conhecimento da ação fiscal em setembro de 2025, agimos com rapidez e rigor. Mesmo antes da conclusão de qualquer processo, a empresa realizou o distrato imediato com o fornecedor em outubro de 2025. Essa medida demonstra nossa política de tolerância zero".

Consequências legais

Segundo a Superintendência Regional do Trabalho, apenas ao final do processo administrativo será possível determinar a responsabilização direta das empresas. Enquanto isso, os donos das oficinas autuadas receberam multas que podem chegar a R$ 100 mil e ainda podem responder criminalmente pelos crimes de redução à condição análoga à de escravo e exploração de mão de obra infantil.

O caso expõe uma realidade preocupante na cadeia produtiva da moda em Minas Gerais, onde o lucro excessivo de marcas de luxo se sustenta sobre a exploração de trabalhadores vulneráveis, muitos deles imigrantes em situação precária. A investigação continua em andamento, com expectativa de que medidas mais rigorosas sejam implementadas para coibir práticas semelhantes no futuro.