Trump enfrenta revolta de católicos conservadores após ataques ao Papa e guerra no Irã
Católicos conservadores se voltam contra Trump após críticas ao Papa

Trump provoca ruptura rara entre católicos conservadores com ataques ao Papa

A relação entre o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump e a comunidade católica conservadora, tradicionalmente alinhada com suas políticas, enfrenta uma crise sem precedentes. Os recentes ataques públicos de Trump ao Papa Leão 14, combinados com a divulgação de uma imagem gerada por inteligência artificial que o retrata como uma figura semelhante a Cristo, desencadearam uma onda de críticas vindas justamente de seus aliados mais leais.

Bispo ex-apoiador rompe com governo

O bispo Joseph Strickland, que em 2024 discursou na Conferência de Ação Política Conservadora onde Trump era convidado de honra, fez uma rara ruptura pública. "Não acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com o papa e seu apelo pela paz", afirmou Strickland à BBC, referindo-se à guerra no Irã iniciada em 28 de fevereiro.

Strickland, que já participou de eventos para "consagrar" a residência de Trump em Mar-a-Lago, citou o Evangelho segundo Mateus para lembrar que "o poder supremo pertence a Cristo, e não a qualquer homem". Sua mudança de posição simboliza uma transformação mais ampla entre católicos conservadores que antes apoiavam incondicionalmente o ex-presidente.

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Imagem de IA e críticas ao Papa geram reação

A imagem gerada por inteligência artificial, na qual Trump aparece com luz irradiando das mãos em pose cristológica, somada aos ataques verbais ao Papa Leão 14 - descrito por Trump como "brando com o crime" - consolidaram uma mudança de opinião que vinha se formando desde o início do conflito no Oriente Médio.

Peter Wolfgang, diretor executivo do Family Institute of Connecticut e voz influente da direita católica nos EUA, declarou: "O presidente Trump não entende como funciona o catolicismo. O papa não é apenas um chefe de Estado, ele é o Vigário de Cristo. Ataques contra ele são recebidos como ataques à própria Igreja".

Convergência incomum entre católicos de esquerda e direita

Segundo dados do Pew Research Center, os católicos americanos historicamente se dividem segundo linhas partidárias em questões como aborto e imigração. No entanto, a guerra no Irã e a postura de Trump frente ao Papa criaram uma rara convergência.

"Embora eu me entristeça com a contundência dos ataques de Donald Trump ao papa Leão 14, de certa forma acolho a clareza da escolha que está sendo apresentada aos católicos", afirma Steven Greydanus, diácono posicionado na ala liberal da Igreja Católica.

O reverendo Antonio Spadaro, subsecretário do Dicastério para a Cultura e Educação do Vaticano, observa: "O papa Leão 14 desloca o debate católico para longe de uma lógica puramente partidária". Ele acrescenta que o fato de Trump atacar o Papa reconhece implicitamente "o peso da voz moral do pontífice".

Guerra no Irã como ponto de inflexão

A forma como os Estados Unidos conduzem o conflito no Irã, particularmente declarações sobre "acabar com a civilização iraniana", tem unido católicos em oposição. Até mesmo Robert Barron, bispo de Winona-Rochester e aliado importante de Trump, exigiu que o ex-presidente pedisse desculpas ao Papa.

Wolfgang, que antes defendia as políticas de imigração de Trump, agora afirma: "Quando o presidente Trump sai por aí falando em acabar com a civilização iraniana, ou o secretário Pete Hegseth faz uma oração sanguinária que é irreconhecível para os católicos, então é completamente natural que católicos conservadores se alinhem ao papa Leão 14".

A oração do secretário de Defesa Pete Hegseth, que falava em "violência esmagadora" e "justiça executada de forma rápida e sem remorso", foi particularmente criticada por contradizer os princípios católicos.

Impacto político e religioso

Esta mudança traz riscos políticos significativos para Trump, que ampliou seu apoio entre católicos conservadores nas eleições de 2024. Segundo o Pew Research Center, 62% dos católicos brancos votaram em Trump, enquanto 41% dos católicos hispânicos o apoiaram.

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"Quanto mais ele atacar o papa, mais seu apoio entre eleitores católicos vai cair", prevê Wolfgang. A rara união de católicos de diferentes espectros políticos em torno da mensagem anti-guerra do Papa Leão 14 representa um desafio inédito para a base conservadora do ex-presidente.

O Vaticano mantém que não se trata de um embate pessoal entre Trump e o Papa, mas sim de princípios morais. "Há uma diferença importante entre desafiar um homem e questionar o princípio que torna a guerra possível", afirma o reverendo Spadaro, destacando que o Papa precisa fazer declarações públicas para "delimitar o limite moral" do aceitável.