Paes planeja deixar prefeitura do Rio em março para disputar governo estadual
Paes prepara saída da prefeitura para concorrer ao governo do RJ

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), prepara o terreno para uma mudança significativa em sua trajetória política. Apesar de ter mantido publicamente ao longo de 2025 o discurso de que concluiria seu quarto mandato à frente da prefeitura carioca, que se encerraria em 2028, Paes pretende, na realidade, deixar o cargo em março de 2026. Seu objetivo é disputar o Governo do Estado do Rio de Janeiro, em um cenário político marcado por instabilidades e investigações federais.

Preparação para a transição e sinais da candidatura

Nos bastidores, a movimentação em direção ao Palácio Guanabara já está em curso há meses. Paes tem trabalhado para preparar uma transição suave para o vice-prefeito, Eduardo Cavaliere (PSD), assegurando aos aliados que não haverá rupturas na gestão municipal. Cavaliere tem participado ativamente das principais decisões e anúncios da prefeitura, inclusive coordenando o Plano Estratégico 2025–2028, em um movimento descrito como uma "transição contínua" até março.

Paralelamente, o prefeito começou a dar sinais públicos de sua ambição estadual. Ele investiu na divulgação das ações do município na área de segurança pública, tema central no estado, e anunciou obras de infraestrutura de transporte voltadas para a Baixada Fluminense, buscando se aproximar do eleitorado metropolitano. Em viagens ao interior, adotou até mesmo uma mudança de estilo, trocando seu tradicional chapéu panamá por um chapéu de vaqueiro.

Atos falhos e o reconhecimento nos bastidores

A discrepância entre o discurso público e os planos reais ficou evidente em alguns momentos reveladores. Em agosto de 2025, durante o evento de lançamento do plano estratégico no Parque Olímpico da Barra, Paes cometeu um ato falho. Ele declarou que Cavaliere "vai tirar de mim uma marca que era minha, a de prefeito mais jovem da história do Rio de Janeiro. Eu assumi aos 38, ele vai assumir aos 30, 31 anos de idade".

Embora tenha tentado corrigir a fala, dizendo que se referia a uma eventual interinidade durante uma viagem, o argumento não se sustentou, pois o vice já havia assumido o cargo interinamente em outras ocasiões. Meses antes, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, já havia brincado sobre a resistência de Paes em assumir a pré-candidatura, chamando-o de "mentiroso" em tom jocoso em entrevista à Folha.

Cenário de incertezas no estado e articulações políticas

A decisão de Paes se desenrola em um contexto político fluminense particularmente volátil. A iminente renúncia do governador Cláudio Castro (PL), prevista também para março, para que ele dispute uma vaga no Senado, abre um vácuo de poder. A situação se complica com as investigações da Polícia Federal que atingiram figuras-chave, como o afastado presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil), antes considerado um forte nome para a sucessão.

O enfraquecimento de Bacellar reacendeu o debate sobre quem será o "governador-tampão" que assumirá interinamente após a saída de Castro. A preferência do governador é pelo secretário estadual da Casa Civil, Nicola Miccione, visto como um nome técnico e de transição, embora cercado de desconfianças. Paes acompanha essas discussões, mas não pretende indicar um nome.

Para construir sua campanha ao governo, o prefeito busca ampliar sua base. Ele mantém conversas com partidos como MDB e PP, que hoje integram a aliança de Cláudio Castro, visando aumentar sua capilaridade no interior do estado. O objetivo é repetir a estratégia de 2024, reduzindo a associação direta de sua candidatura ao presidente Lula e ao PT em um estado de perfil majoritariamente bolsonarista. Rogério Lisboa (PP), ex-prefeito de Nova Iguaçu, é um dos nomes cotados para a vice na chapa.

Perspectivas e avaliação interna

Apesar das promessas anteriores de não renunciar – que ele chegou a fazer "pela Portela e pelo Vasco" –, aliados de Paes avaliam que não haverá um desgaste político relevante. Eles argumentam que pesquisas internas indicam que o eleitorado deseja que o prefeito concorra ao governo do estado, que enfrenta graves crises financeira e de segurança pública. A articulação de Eduardo Paes, portanto, avança em meio a um tabuleiro complexo, definindo os próximos capítulos da política no Rio de Janeiro.