Vice-reitora da UFSC renuncia com duras críticas à gestão e acusa reitor de violência política de gênero
A professora Joana Célia dos Passos apresentou formalmente sua renúncia ao cargo de vice-reitora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em documento divulgado na quarta-feira (18). Em sua carta de desligamento, a docente fez severas críticas à atual administração da universidade, citando problemas estruturais na gestão, ataques recorrentes, crise orçamentária significativa e, principalmente, violência política de gênero por parte do reitor Irineu Manoel de Souza.
Acusações de violência política de gênero e silêncio institucional
No texto endereçado ao Conselho Universitário e à comunidade acadêmica, Joana Célia afirmou que "a violência política de gênero permeou meu exercício no cargo". A professora destacou que o silêncio do reitor diante dos reiterados ataques que sofreu — inclusive de membros da própria gestão e durante sessões do Conselho Universitário — representa um reflexo preocupante de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço das mulheres em posições de liderança.
"O silêncio do reitor sobre os reiterados ataques que sofri — de membro da gestão e até mesmo durante sessões do Conselho Universitário — é reflexo de uma cultura institucional que restringe sistematicamente o espaço de mulheres na liderança", escreveu a vice-reitora em sua carta de renúncia.
Resposta do reitor e divergências sobre os motivos da saída
O reitor da UFSC respondeu oficialmente às acusações através de uma nota pública, na qual esclareceu que "não concorda com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora". Irineu Manoel de Souza reforçou que a saída de Joana Célia está atrelada também a uma solicitação para que ela seja cedida para assumir o cargo de Secretária Nacional de Autonomia Econômica e Política de Cuidados, no Ministério das Mulheres.
"Esclareço que não concordo com nenhuma das alegações apresentadas pela vice-reitora Joana Célia dos Passos em sua carta, por não refletirem o conjunto de ações, princípios e resultados do trabalho desenvolvido pela nossa gestão", afirmou o reitor na manifestação oficial.
Críticas à gestão e à crise orçamentária da UFSC
Na carta de renúncia, a professora também criticou o que chamou de "postura passiva da reitoria frente à crise orçamentária" que afeta a universidade. Segundo Joana Célia, a falta de articulação política junto ao Ministério da Educação (MEC) e a outros órgãos federais deixa a UFSC em situação vulnerável, exigindo uma liderança que defenda a instituição com mais firmeza em Brasília.
A docente argumentou que a aliança construída em 2022, que desenhou a atual gestão, foi fragilizada com o passar do tempo, e que a administração atual "se distanciou de um projeto coletivo". Ela destacou ainda que, apesar de terem sido eleitos sob a promessa de uma gestão democrática, o que se seguiu foi uma sistemática centralização das decisões, levando à exclusão da vice-reitoria.
Trajetória acadêmica e próximos passos institucionais
Professora há 39 anos, sendo 29 dedicados ao ensino superior, Joana Célia dos Passos é mestra e doutora em Educação pela própria UFSC. Ela foi nomeada vice-reitora em 2022, juntamente com Irineu Manoel de Souza, compondo a chapa que assumiu a gestão da universidade.
De acordo com a nota do reitor, caberá ao Conselho Universitário a aprovação de um novo docente para completar o mandato na Vice-Reitoria. Nos termos da legislação vigente, no prazo de até 60 dias deverá ser escolhido o novo titular para o cargo.
Contexto da crise orçamentária e posicionamento da UFSC
A UFSC enfrenta uma crise orçamentária que ameaça seu funcionamento regular. Em entrevista à CBN Floripa no final de dezembro, o reitor afirmou que a administração da universidade precisou renegociar contratos, cortar gastos e buscar alternativas para evitar a paralisação das atividades acadêmicas e administrativas.
Apesar dos desafios financeiros, a instituição mantém reconhecimento acadêmico significativo. A UFSC é considerada a oitava melhor universidade do Brasil e a 23ª da América Latina, conforme o levantamento QS World University Rankings: Latin America & The Caribbean 2026. Além disso, a universidade teve 34 pesquisadores reconhecidos entre os mais influentes do mundo no ranking Best Scientists in the World by Discipline 2025.



