Vereador do Pará é cassado por compra de votos e uso de óculos-espião em eleição
O Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) cassou, nesta quarta-feira (21), o mandato do vereador Edivaldo Borges Gomes, conhecido como "Irmão Edivaldo", do MDB de Ourilândia do Norte, no sul do estado. A decisão confirmou sentença de primeira instância que o condenou por compra de votos e uso de "óculos espião" durante as eleições.
Patrimônio milionário e inelegibilidade por oito anos
O parlamentar, que tem 54 anos, declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de R$ 8.375.000, composto por terrenos, veículos e casas. Com a cassação, ele perde o diploma, tem seus votos anulados, recebe multa e fica inelegível por oito anos. A medida ainda cabe recurso ao TSE.
Esta não é a primeira vez que "Irmão Edivaldo" enfrenta problemas eleitorais. Em abril de 2025, ele já havia sido cassado pela 74ª Zona Eleitoral de Ourilândia do Norte, acusado de compra de votos e abuso de poder econômico. O g1 solicitou posicionamento ao vereador e aguarda retorno.
Esquema organizado com tecnologia de vigilância
As investigações revelaram um esquema organizado para garantir a fidelidade de eleitores através de pagamentos em dinheiro vivo, estratégia adotada para evitar rastros bancários. Os detalhes do esquema incluem:
- Cabos eleitorais recebiam R$ 100 por indicação de eleitor
- Cada eleitor que aceitava vender o voto recebia R$ 200
- Para fiscalizar o cumprimento do acordo, o grupo utilizou recursos tecnológicos avançados
O caso ganhou contornos tecnológicos quando uma eleitora adolescente foi orientada a votar usando óculos equipados com uma microcâmera. O dispositivo gravava o momento da votação dentro da cabine eleitoral, prática que viola frontalmente o sigilo do voto.
Flagrante dentro da seção eleitoral
A fraude começou a ser descoberta quando uma mesária desconfiou da eleitora, que usava óculos escuros durante a votação. Ao pedir que o objeto fosse retirado, foi identificada a microcâmera frontal escondida nos óculos.
Com a jovem, também foi encontrado um "santinho" com o código "yx33", utilizado pelo grupo para controlar quais eleitores já haviam votado conforme o combinado. As imagens gravadas foram consideradas prova determinante para a confirmação da fraude eleitoral.
Trajetória política e familiar
Edivaldo Borges Gomes nasceu em 12 de setembro de 1970, em Uruaçu (GO), e chegou a Ourilândia do Norte em 1986. Ele construiu carreira política com quatro mandatos como vereador:
- Primeiro mandato (2005-2008) pelo PDT: 331 votos
- Segundo mandato (2009-2012) pelo PDT: 359 votos
- Terceiro mandato (2021-2024) pelo MDB: 545 votos
- Quarto mandato (2025-2028) pelo MDB: 848 votos (cassado)
Segundo o próprio político, ele pretendia continuar na vida pública até disputar a prefeitura. No meio religioso, atuava como 1º vice-pastor da Assembleia de Deus Ministério de Madureira.
A situação familiar também chama atenção: todos os três filhos do vereador - Deibson da Silva Gomes, Débora da Silva Gomes e Dhyeimison da Silva Gomes - foram condenados por compra de votos. O g1 tenta contato com a defesa dos citados no processo.
O caso representa um marco na fiscalização eleitoral no Pará, mostrando como a Justiça Eleitoral tem combatido práticas fraudulentas que ameaçam a democracia, mesmo quando envolvem tecnologia sofisticada para burlar o sistema.