O governo da Venezuela anunciou a libertação de 400 pessoas consideradas presas políticas pela oposição, em um movimento apresentado como um gesto para distensionar o cenário político do país. No entanto, organizações de direitos humanos e a oposição contestam a veracidade dos números e exigem transparência.
Anúncio oficial e críticas da oposição
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, divulgou na noite de terça-feira, 13 de janeiro de 2026, que 400 pessoas já foram libertadas. Segundo ele, esse balanço inclui 160 solturas ocorridas em 23 de dezembro de 2024, e as demais após a invasão militar dos Estados Unidos ao país, episódio no qual o presidente Nicolás Maduro foi sequestrado.
Rodríguez, que é irmão da presidente interina Delcy Rodríguez, afirmou que a decisão de libertar certos indivíduos foi deliberada. "Pessoas que incitaram a agressão militar contra a Venezuela, e tiveram seus pedidos atendidos", declarou, respondendo a uma provocação do deputado oposicionista Luís Florido. O objetivo da medida, segundo o governo, é promover a convivência pacífica e a unidade nacional.
O parlamentar prometeu disponibilizar a lista dos presos libertados, mas ressaltou que as libertações continuarão "não porque vocês nos peçam, mas porque o governo bolivariano já o havia anunciado como um gesto unilateral".
Números divergentes e falta de transparência
Após o anúncio, o deputado Luís Florido disse que aguardará a publicação da lista oficial, ponderando que o número de 400 não coincide com os dados de organizações sociais. "Esperamos que possam nos fornecer essa informação para que possamos verificar os nomes. Acreditamos que há muitas pessoas que ainda não foram liberadas", afirmou.
As ONGs apresentam números significativamente menores. A organização Foro Penal calcula que apenas 116 pessoas foram libertadas, o que representaria cerca de 10% dos aproximadamente 800 presos políticos que a entidade afirma existir no país. "O governo alega ter libertado 100 pessoas, mas o número real é de apenas 50. Por quê? Porque não publica a lista e inclui pessoas que não são prisioneiros políticos", denunciou Alfredo Romero, presidente do Foro Penal, em entrevista à France 24.
O Observatório Venezuelano de Prisioneiros confirmou, até a manhã de quarta-feira (14), a liberação de 80 pessoas após o sequestro de Maduro, sendo 66 venezuelanos e 14 estrangeiros. A organização criticou a lentidão do processo: "As libertações têm sido a conta-gotas. A falta de transparência é uma política de Estado. Famílias continuam aguardando libertações em massa".
Contexto e um caso emblemático
O governo venezuelano nega sistematicamente a existência de presos políticos, alegando que os detidos foram encarcerados por crimes como insurreição, golpe de Estado ou por articular uma intervenção militar estrangeira.
Entre os libertados recentemente está uma figura conhecida: o ex-candidato à presidência Enrique Márquez. Ele estava preso desde julho de 2024, acusado de tentativa de golpe de Estado no contexto das contestações à reeleição de Nicolás Maduro. Sua soltura é um dos pontos altos das recentes liberações, mas também ilustra a disputa narrativa sobre quem é considerado preso político.
A controvérsia sobre os números e a identidade dos libertados mantém as tensões no país, com o governo buscando projetar um gesto de apaziguamento e a oposição exigindo provas concretas e a libertação de todos os que considera perseguidos por motivos políticos.